Mestres dos beats: Uma conversa sobre produção musical com Mario Dal Santo e Wendel Vicente - 17/05/2016


Por: Alexandre Bezzi (matéria publicada na House Mag impressa número 43)


A produção musical deu um grande salto nos anos 2000 e desde então, surgiram diversos produtores encorajados pelas facilidades tecnológicas. Estamos em um momento em que não é preciso gastar fortunas para ter seu próprio álbum gravado e divulgado. Os downloads e a área - quase livre - da internet lançaram a possibilidade da divulgação, compartilhamento e venda de arquivos de áudio. Mesmo com todo advento digital e softwares como Logic, Ableton Live e Fruity Loops, alguns produtores não descartam os meios analógicos e hardwares para a composição de um bom trabalho.

Por isso, bati um papo com figuras interessantes que há anos fazem do estúdio sua segunda casa e passam horas entre synths e drum machines, utilizando diversos meios para o resultado ser sempre o mais satisfatório possível. São eles Mario Dal Santo (Santo Studio) e Wendel Vicente, da Beatmasters. Ambos começaram suas carreiras como músicos e ao longo dos anos foram se aperfeiçoando nos bastidores e na árdua tarefa da arte da mixagem e masterização. Confira:


HOUSE MAG - Como começaram seus estúdios?

Dal Santo -
O Santo Studio começou a funcionar em 2000. Dali pra frente nunca mais trabalhei com outras coisas que não fossem música e computador.

Wendel - A Beatmasters foi fundada em 2000 pelo produtor Ramilson Maia e pela dupla Drumagik, e desde 2008 assumi a direção da escola/estúdio.


HM - Em que momento vocês decidiram ser produtores musicais e explorarem a área da e-music?

Dal Santo - Quando mudei para Porto Alegre morei com meu irmão Egisto, renomado produtor gaúcho de rock, o que me fez conviver com o Edu K, que já fazia muita coisa eletrônica... E embarquei junto. Logo depois nos mudamos pra SP, e produzimos inúmeras bandas de rock indie, no entanto, meu gosto pessoal me levava pra cena “clubber” da cidade. Já conhecia vários nomes influentes como Marky, Magal, e acabei indo trabalhar em casas noturnas. Fiz diversos cursos em Los Angeles e até mesmo na fábrica de sintetizadores da Moog em Ashville (EUA).

Wendel - Meu tio tinha uma equipe de bailes nos anos 1980. Um dia me mostrou “Planet Rock” do Afrika Bambaataa & Soul Sonic Force. Fiquei impressionado com o poder dos beats e perguntei que som forte era aquele na música, e ele me respondeu que era uma bateria eletrônica. Mais tarde descobri que se tratava da Roland 808. Desde então, não parei mais.


HM - Quais softwares têm se mostrado mais eficientes para a criação de músicas e até a finalização de um álbum?

Dal Santo - Sou usuário aplicado do Logic. Comecei muito novo com o Notator do computador Atari ST (1993), que já vinha de fábrica com midi e é considerado até hoje como um marco da música eletrônica. Em 1996 comecei a usar o Pro Tools e até hoje finalizo tudo nele. Depois cheguei a dar aula de Reason, porém nunca usei profissionalmente. Aprendi na marra a usar o Ableton, mas não sou dependente de plugins, samples e presets, pois prefiro trabalhar outboard sempre que possível. Foco na musica e não na tecnologia.

Wendel - Costumo dizer para nossos alunos que quem cria músicas são pessoas, não softwares. Dito isso, existem os que permitem um desenvolvimento mais aprimorado da faixa, como Ableton Live, Cubase, Logic, Reason e outros. Todos são ferramentas completas.


HM - Com quais artistas ligados a cena eletrônica vocês já trabalharam? Quais foram os mais interessantes?

Dal Santo - Adorei trabalhar com o Gui Boratto, uma oportunidade única que a Red Bull nos proporcionou. Meu produtor referência sempre vai ser o Joe Meek, mas cresci ouvindo arpegiadores e sintetizadores analógicos criados por Giorgio Moroder. E gosto muito mesmo do Aphex Twin (esse cara mudou minha vida).

Wendel - Fui o primeiro baterista a tocar com um DJ no Brasil na época da parceria com o Ramilson Maia. Depois disso trabalhei com muita gente legal (Daniel Peixoto, Renato Lopes, Madame Mim, Carlos Dall Anese), e acredito que todos foram importantes para minha carreira. Gosto muito do trabalho do Flume.


HM - Que dica vocês dariam aos os novos produtores?

Dal Santo - Estude, ouça, coma e beba música. Tenha compromisso com a arte e dê prioridade ao que acredita. Uma hora sua carreira acaba, mas o legado fica.

Wendel - No passado, o artista para se destacar tinha que ser diferente de tudo que rolava. Hoje parece que é ao contrário: quanto mais igual, melhor. Sejam originais!