Alter Disco: uma festa de amigos que virou um business - 18/05/2017


Por: Georgia Kirilov





Alter Disco é um dos principais coletivos da cena curitibana, que está se desenvolvendo extensivamente e explorando diversas vertentes da música eletrônica. Formado por Barbara Boeing, Felipe Muller (Phil Mill), Marcelo Sena (De Sena) e Claudio Rotunno, este coletivo fortaleceu-se de maneira orgânica e inusitada: a partir de uma banda de rock.

Dez anos atrás, Boeing e Muller costumavam dividir o deck juntos, até que o estilo em voga e as festas que eles frequentavam começaram a saturar e a turma se aposentou. Foi então que a banda de rock tomou forma mesmo sem vocalista, com a adição de Sena e depois Rotunno. O sucesso foi acima das expectativas e a banda passou 2 anos em ensaios e viagens. Felipe decidiu voltar a tocar, Marcelo aprendeu, e Barbara e Claudio não tiveram escapatória: nasce a Alter Disco.

No começo, a festa era totalmente patrocinada pelos quatro amigos, desde o sistema de som até a água e os copos. Cada um levava sua bebida. Um amigo, Claudio Vieira, abria as portas da sua casa com o intuito de reunir pessoas para escutar o tipo de música que não se podia encontrar nas festas de Curitiba, como house, disco e ítalo, até techno e ambient. Tudo tomou proporções maiores e, cerca de um ano e meio atrás, o coletivo virou um negócio e passou a vender ingressos e captar patrocinadores do porte de Budweiser, Kettel One e Red Label.

Nesta sexta-feira (18/05) eles comemoram seus 5 anos de música com Max Graef estreando em solo brasileiro. Neste processo, a Alter Disco reafirma que sua essência artística manteve-se intacta mesmo após tantos anos e tantas renovações. Conversamos com o coletivo sobre como tudo começou, quais são os planos futuros e quais foram os momentos especiais desses últimos anos. Confira abaixo:


 

 

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HOUSE MAG: Quando vocês passaram a cobrar pelos ingressos, o intuito foi diminuir prejuízos ou foi uma ideia baseada na vontade de expandir os horizontes do coletivo?

Alter Disco: Nós já tínhamos um público, mas era bem pequeno. Quando a gente fazia festas fora da casa do Claudio, iam ainda menos pessoas. Então acabou que falamos, “OK, já que todos os nossos trabalhos são em áreas não-relacionadas a música, decidimos que nunca iríamos lucrar com a Alter. Você pode entrar na Alter e deve contribuir, mas ninguém nunca colocou um real sequer de lucro no bolso.

Transformamos em business para que se tornasse viável trazer nossos DJs preferidos, pois nunca teríamos a chance de vê-los na cidade. Fizemos certos ajustes para organizar a festa, como algum artista criando algo durante os sets a cada edição e a moeda própria da Alter, que você usa para pegar bebidas no bar.

 





HM: De fato a Alter começou de maneira muito orgânica e sem foco no lucro. Devido a esse começo, a dinâmica se torna totalmente diferente. Muitos outros coletivos já começam sendo um business, com estética fixa e tal. Agora que isso já tomou uma outra forma e não é mais aquela festa de antes, existe uma troca nos valores que vocês querem passar como um coletivo? Se tornou algo consciente ou continua sendo fluído

AD: A gente fez “sucesso” muito mais sem querer do que algo projetado. Somos extremamente amadores em fazer festas, foi algo que realmente aprendemos. A organicidade se traduz nas nossas festas. Em relação à música, é totalmente fluído. A gente escolhe quem a gente gosta. Eu não acho que as nossas escolhas sejam baseadas em algum cunho político ou social, a gente só traz o que escutamos. Mas existem certos valores sociais que são importantes para nós como, por exemplo, preço unissex e bar diversificado (tem de Catuaba até Kettle One); queremos desde a pessoa que economiza 20 reais para ir nas nossas festas até aquela que topa pagar 50 na porta sem problemas. Queremos que elas coexistam.







HM: Mas como manter a energia da festa com pessoas tão diferentes? Existe uma colisão  nesse encontro?

AD: Apesar de não sabermos se é isso o que acontece mesmo, o que a gente espera é que essas pessoas vão lá pela música, porque quando você está lá pela música, não importa quem você é. Você não vai estar olhando para o lado, isso não vai te importar muito. Esperamos que as pessoas coexistam por isso. 







HM: O que vem nos próximos 5 anos? Querem fazer algo especifico?

AD: Temos alguns planos. Queremos abrir a Alter Radio. Já temos tudo esquematizado, só falta fazer acontecer mesmo. É complicado, pois todos trabalhamos e tal. A ideia é trazer pessoas para o estúdio da casa do Felipe para tocar após um de nós introduzir a Alter Disco e fazer um warm-up.







HM: A intenção é enaltecer o local/nacional ou trazer gringos também?

AD: É difícil trazer pessoas de fora do Brasil para tocar no estúdio, né. Então a ideia é fazer uso das oportunidades à medida que elas surgem. Se houver artistas internacionais que estão passando por aqui, é claro. O foco principal, porém, é fazer um intercâmbio com outros coletivos nacionais e figuras que são nossos amigos e exploram sons que nos interessam.







HM: Vocês têm vontade de ter um lugar fixo?

AD: Não. Mudar de local é parte da graça também.







HM: O intuito é ficar em Curitiba?

AD: Queríamos muito levar para SP. É um sonho, com certeza. Se tivéssemos alguém que quisesse produzir a Alter em SP, alguém que viabilizasse, seria ideal. 

 

 

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HM: Para finalizar, conta pra gente: quais foram os highlights desses 5 anos? Momentos especiais para serem colocados em evidência...

AD: A Selvagem, em setembro de 2016, foi sem dúvidas a melhor festa que a gente fez. Akufen foi incrível e a maneira que nos conhecemos também foi incrível. Ele curtiu um set meu de um tempão atrás e nos conectamos. Certo dia ele disse que estava indo tocar em SP. Então decidimos que ele ia tocar para nós também, mas não podíamos pagar muito. Ele topou e para nós foi assim, uma das primeiras festas que lotaram muito. Jacuzzi com os amigos pelados também faz parte da essência da Alter, ficamos famosos por isso (risos). E por fim, agora estamos usando articuladores para fazer a pré-venda dos ingressos, o que está dando muito certo. Escolhemos pessoas bem diferentes uma das outras, que conseguem atrair diversos nichos e manter a nossa diversidade na pista.