Steve Aoki: no comando do jogo - entrevista de capa da House Mag impressa de agosto de 2012 - 18/05/2017


Por: Gabriela Loschi 

*entrevista de capa da House Mag impressa #31, de agosto de 2012


Na adolescência, ele escrevia cartas para bandas que admirava. Hoje, aos 35 anos, interage com o públio através de mídias sociais, os banha com campanhe e vive o ano de sua vida. Em turnê pelo seu primeiro album de estúdio, Wonderland, lançado em janeiro, apareceu na 72a posição no ranking da Poollstar sobre lucro de shows nos Estados Unidos - e o que está em questão aqui é a meca da indústria mainstream. Isso significa que Steve Aoki é o artista de música eletrônica que mais arrecadou com bilheterias na primeira parte do ano. Ao todo, foram 88 apresentações só no primeiro semestre - o que não chega a ser impressionante se levarmos em conta os 250 shows que realizou em 2011.


 


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Terminar a noite numa mesa de poker em Las Vegas, após sua gig no Surrender, é clichê para Steve Aoki. Quando ele resolve levar ainda mais a sério, convida amigos - e não subestime-os, são jogadores profissionais da laia de Antonio Esfandiari e íntimos como Afrojack - para festas particulares em sua mansão de Los Angeles. Apesar de ter perdido para um fã na última edição do seu grandioso e bem cotado cruzeiro no Caribe, Holy Ship, e ter arcado com as despesas do mesmo durante a festa, há quem evite jogar cartas com esse astro da música eletrônica. É que ele fácilmente ganha alguns mil dólares em uma partida.

Poker, no entanto, não é o que Steve joga melhor. E não estamos falando dos bolos que ele atira do palco direto na cara das pessoas eufóricas - ato que, apesar de o divertir, levanta fúria em muita gente. O herdeiro da fortuna Benihana - sim, seu pai é o dono da rede de restaurantes japoneses - está na linha de frente do mais novo preferido jogo milionário do show business, a Electronic Dance Music e sua legião de fãs adolescentes.


 


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Com ilimitado poder em ler pistas e comunicar-se com jovens, Aoki aproveita o momento mais explosivo e prolífero da carreira fazendo e lançando o que gosta, música: "Eu amo produzir com Afrojack e nossas conversas sobre sons futurísticos, novas batidas, máquinas, guitarras, diferentes gêneros musicais, o que podemos fazer para manter a coisa toda cool, interessante. Estamos lançando single do Booka Shade, álbum do Proxy, que é uma grande influência para a cena electro nos últimos três anos, vai vir uma parceria com Knife Party, hoje um dos melhores. E é isso, a vida é curta, basta aproveitar o tempo e não desperdiçar a única chance que temos para fazer algo".

Diretor musical dos próprios clipes, dono de marcas, clubes, carismático e criativo, o chefe da Dim Mak é extremamente concentrado no trabalho e atrai opiniões divergentes ao seu respeito. Nada que ele se preocupe muito. Tido como "super cool", sua profissão é sólida e o círculo de amizades, poderoso. É querido em várias esferas do meio musical, entre celebridades e estilistas, para quem já tocou antes da fama, e mais acessível ao seu público do que outros TOP-DJs. 

Ensinou Lindsay Lohan a mixar anos atrás. "Somos apenas bons amigos", desconversa os boatos de que existiria algo, digamos, mais próximo entre os dois. O fato é que DJs celebridades, especialmente quando "só apertam o play", tiram o sono de muita gente. O que ele pensa a respeito? "Não é necessariamente minha cara apoiar esse tipo de coisa, mas também não fico chateado. Isso vai continuar, não da para falar pra ninguém: `você não pode fazer`. Tem lugar pra tudo. Não faz sentido uma celebridade tocar em festival, mas já em um clube... acontece o tempo todo. Eu não iria ao México ver Brad Pitt tocar, mas tem gente que vai, não posso parar isso. Eu amo música e admiro pessoas pelo que elas criam, cada um deve estudar e seguir a carreira que quiser".


 


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De lá pra ca


 


Quando, em 1996, Steve criou o selo independente e até então voltado ao rock Dim Mak, ninguém imaginaria que 16 anos mais tarde seu criador estaria à frente de um dos maiores labels do cenário electro-pop. Conhecido no mercado alternativo por trazer bandas de punk e indie rock à Los Angeles, até 2005 era impensável dizer que Aoki seria uma das peças chaves do que chama de revolução do electro, no apogeu do gênero. "Eu bookava em minhas festas bandas como Interpol, The Killers, Bloc Party, em LA e esse era meu mundo. Até 2006 trazia integralmente artistas do universo rock". 

Em 2007, no entanto, a Dim Mak assinou com MSTRKRFT e Bloody Beetroots, o que foi definitivo para criar a identidade electro do selo. No ano seguinte, lançou o primeiro álbum, a coletânea Pillowface and His Airplane Chronicles: "Foi a primeira vez que documentei minha perspectiva sobre o mundo, quando me defini como um artista de electro. Era uma época diferente da música".


 


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Não foi há tanto tempo, mas a transformação da cena caminha a passos de elefante e hoje a Dim Mak, notoriamente acompanhando e lançando tendências, expandiu e agrega outros estilos, de dubstep ao psytrance reformulado do Infected Mushroom. "Quando o electro veio ao mundo, era como o punk do dance floor. Éramos contra a house music emotiva, nos separamos da dance music, como uma fatia de bolo, e criamos um novo mundo, nossa própria sociedade. Os gêneros eram bem mais definidos, um artista raramente entrava no mundo do outro. Ou você era comercial e estava do lado de Guetta, Tiesto, ou estava do lado de Justice - as duas cenas não se juntavam. E isso até 2007 mais ou menos. Minha colaboração com Tiesto jamais aconteceria naquela época. Hoje todos deram as mãos e estão juntos criando novos gêneros. Gosto dessa harmonia, o relacionamento com todos os artistas atravessou as fronteiras entre o underground e o mainstream", conta, trazendo à tona outra discussão que ronda a música desde sempre, mas que está mais forte do que nunca em função da comercialização adjunta à cena: estaria o underground mais próximo ou ainda mais distante do mainstream? 

"São dois mundos colidindo-se, dois círculos encontrando-se e há uma área no centro onde você pode atravessar. Mas o mais importante é lembrar que a essência da música eletrônica não é baseada em vocais, então nunca será exatamente comercial. A alma da dance music não pode ser corrompida pelo rádio, pelo mundo pop. Mas o pop pode pegar ideias e trabalhar com artistas de música eletrônica, criar uma dance music pop. Claro que há mais colaborações e mais artistas atravessando a fronteira, colocando vocais em suas músicas".

Ele, inclusive. Mas a despeito de ter usado vocais - de hip hop, r&b, indie a pop - em 100% das faixas, e já ter hits nas rádios, não considera Wonderland pop: "Queria trabalhar com artistas de diferentes estilos e fazer um álbum com rock, dance, hip hop, bandas, punk, house, electro, essa ideia da mistura. Mas se você ouvir minhas faixas, percebe que não as produzi para o show business de rádio, ou para me tornar um pop star. As batidas são bem undergrounds". Um mash-up de suas influências ao longo dos mais de 15 anos na indústria fonográfica. De Lil Jon a LMFAO, Kid Cud e a brasileira Lovefoxxx do Cansei de Ser Sexy, as parcerias mostram também suas amizades. "Já aconteceu de eu me tornar amigo de um artista mas não querer fazer música com ele, é uma saia justa, mas ao mesmo tempo em que não gosto de me limitar, só trabalho com quem é amigo e bate o conceito. Conheço a Lovefoxxx há muito tempo, eu amo ela e todos do CSS, escrevi essa música (Heartbreaker) pensando num vocal feminino, foi um desafio, mas perfeita para a voz maravilhosa que ela tem, além do seu estilo, que forma todo o conjunto que eu gosto no indie-pop-rock", conta.


 



 


What`s next


 


"Sou obcecado pelo futuro e por tudo o que a technologia nos permite criar. Gosto da ideia de que o mundo e a nossa própria vida dependem de nós mesmos e do que fazemos com a nossa criatividade. Eu amo a tecnologia, estou sempre procurando por novos aparelhos e eles alimentam minha criatividade. Mas o que vem depois? Difícil saber. Tudo está mudando tão rápido que nem eu sei. Esses novos produtores nerds estão realmente mudando o jogo, os adolescentes que movimentam o mercado... mas depois que Skrillex institucionalmente modificou completamente o curso dos sons, não da pra saber o que vem depois. Não consigo pensar em um só artista que tenha mudado tanto o jogo recentemente. Claro que também tem caras como Jamie Jones, produzindo música mais populares esse ano. Não importa de que lado ou de que cena você seja, desde que estude, produza, se reinvente, pesquise o processo de produzir novas batidas, novos estilos. Quando você cria algo novo, o mundo te segue. Você pode manter o jogo. Ou pode mudá-lo".


 


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STEVE AOKI TIMELINE 2012


 


1977 - Steve Aoki nasceu em Miami, mas logo se mudou para a Califórnia, onde mora até hoje


1996 - Fundou o selo Dim Mak


1997 - 2000 - Foi vocalista da extinta banda de punk e hardcore This Machine Kills


2000 - Se formou na University of Santa Barbara em Sociologia e Estudos das Mulheres


2002 - As festas indie rock eram o foco da Dim Mak e Steve usa picape pela primeira vez


2003 - Dim Mak assina com a banda inglesa Bloc Party e contrata mais pessoas. A venda de records torna-se uma grande parte do label e o business cresce


2005 - DJs de electro explodem no mundo. Steve mixa indie electro pela primeira vez


2006 - Justice e outros artistas de electro tocam em festas da Dim Mak


2007 - MSTRKRFT e Bloody Beetroots entram para a família Dim Mak e a dance music agora é uma realidade. Steve começa negócio com fones de ouvido


2008 - Lança Pillowface and His Airplane Chronicles em janeiro. Toca no Brasil pela primeira vez. Vai ao ar seu Essential Mix na BBC Radio 1


2009 - "Forever", seu remix featuring Kanye West, Drake, Eminem e Lil Wayne, entra no chart da Hype Machine em dezembro. Entra no mundo da produção com Logic


2010 - Começa residência no luxuoso Surrender at Encore, em Vegas, que passa a ser sua segunda casa. A track "I`m in the house", em parceria com will.I.am, chega na posição 29 na Inglaterra na mesma semana em que foi lançada


2011 - Começa residência no XS, em Las Vegas e abre a Dim Mak Studios, clube em Hollywood


2012 - Wonderland vem ao mundo. Dim Mak lança mais de 300 releases até o meio do ano. Steve toca para o maior público de sua carreira, no Tomorrowland e, em julho, se torna o artista de dance music que mais rendeu bilheteria, de acordo com a Poollstar Top 100 North American Tours.