O alemão Losoul chega ao Brasil trazendo sua musicalidade e nos concedeu uma entrevista exclusiva - 19/05/2017



O DJ e produtor Losoul é sinônimo de música elegante, pista dedicada, batidas com bom gosto. Hoje o alemão se apresenta na Serialism, festa chefiada pelo carismático palermino Cesare Marchese (aka Cesare vs Disorder, Azimute, Strangers in Heaven, Queen Atom), que trouxe a tour do seu selo - que rodou o mundo - a São Paulo com o intuito de presentear nossa pista com alguns dos nomes mais interessantes e pouco óbvios que vêm refrescando o cenário eletrônico global.

A festa hoje acontece em um lugar secreto (é uma Warehouse party) e, além do legendário Losoul, terá Quenum, L_cio, Insanity e o anfitrião Cesare no line up (mais infos aqui)

Pra ir aquecendo, nosso colaborador Chico Cornejo apresenta agora uma entrevista exclusiva e super interessante com Johannes Crämer, AKA Losoul, que numa rara oportunidade dividiu um pouco da sua vida com a gente, confira:









Por: Francisco Raul Cornejo


HOUSE MAG - Entendo que sua família acaba de aumentar e isso transforma profundamente a vida de qualquer um. Isso teve alguma relação com sua produtividade um pouco mais esparsa ultimamente? E quanto a qualitativamente, a chegada do novo rebento mudou sua percepção musical ou processo criativo?

LOSOUL - Bom, nosso filho agora já tem alguns anos e posso dizer que estamos extremamente felizes de como ele tem se desenvolvido.

Para mim, ter um filho não afeta muito as ideias básicas do meu trabalho musical. A perspectiva cultural e a dedicação artística que tenho sobre a música tampouco mudaram. Por quê? Porque eu nunca excluí o aspecto infantil. Com certeza há adaptações e novas exigências atreladas a isso, mas também há uma imensa energia em retorno - não apenas do meu filho, mas de toda a comunidade. E sim, dei o nome de “Daddy what’s a rise?” a uma de minhas faixas recentes, como uma referência ao meu envolvimento com a vida paterna tanto cultural como emocionalmente. Ela saiu pela Hypercolour e acho que até o pessoal da cena curte. Muitos artistas, promoters e donos de selo que conheço têm filhos… não é daí que todos viemos? Esse é o círculo, ou melhor: o loop, da vida.

O quê? Minha produtividade caiu? Nossa! Preciso dar uma olhada nisso...


 



 


HM - Onde você vive atualmente? No mesmo lugar desde sempre?

LOUSOUL -
Eu sou de Colônia originalmente, mas vivo na região de Frankfurt por um bom tempo já. Viajei pelo mundo todo durante os últimos vinte anos e estou contente de ter uma base que me mantém firme e na qual posso fazer meu trabalho de casa. Claro, pensei em me mudar para Berlim por exemplo, mas não é tão longe de onde vivo de qualquer maneira e acabo indo para lá quando toco ou visitar alguém com certa frequência. Se morasse um pouco mais longe ou em outro país, a mudança faria mais sentido.

Sempre vejo acontecer que, quando um artista se desloca para Berlim, ele ou ela demoram mais um ano para terminar um lançamento - só porque há tantas coisas para conferir e tanta gente para encontrar que você acaba sem tempo para seu trabalho de verdade.

Mas, quem sabe? Talvez nos mudemos em breve...


 


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HM - Falando de família e lar, como é ter uma relação tão duradoura como que você possui com a Playhouse e a turma do Robert Johnson? Como ela começou?

LOSOUL - Playhouse foi um dos primeiros selos em que lancei minha música. Quando me uni a eles, nos meados dos noventa, tinham poucos lançamentos. Dali fomos crescendo juntos. Sempre conheci todo o pessoal envolvido, já que eram da região de Frankfurt também e faziam parte da cena local. Ata, Heiko, Jörn e Roman, Ricardo, Rajko, Andy, Andrea e muitos outros. Nós saíamos, fazíamos festas e tocávamos juntos, nos econtrávamos nas lojas de discos, o usual. Foi aí que mostrei algumas faixas ao Ata e eles finalmente lançaram o 12 “ origienal de “Open Door”. Quanto ao selo, eu não diria que era uma família. O que nos uniu foram nossos interesses: o amor pela  música e pela vida noturna e fazer tudo isso com uma boa apresentação. Eu produzia e tocava, mas não estava envolvido com a organização do selo propriamente dita. Era uma relação de troca. Eles se supriam de impressões, inspiração e ideias de nós, artistas, e as utilizavam para promoção, networking e projetos para nós e eles mesmos. Era um ambiente especial e conquistamos muito juntos.

Claro que todos conhecemos os resultados. O Robert Johnson abriu suas portas bem no final dos noventa e nasceu das atividades do selo após a residência que eu, Ata, Heiko e Andy tínhamos fechar. Durante os anos seguintes ele se tornou uma sala de estar e palco para muita gente da cena local, além de inúmeros convidados de toda parte do mundo até hoje. Ainda há o selo filiado ao club, LARJ que apresenta primordialmente uma nova geração de artistas. Roman e eu lançamos lá também.

Como deve saber, a Playhouse já está inativa por alguns anos. Persistiu por quase vinte anos e nos trouxe um monte de música que podemos dizer que é parte única da história da música. A maioria dos artistas associados a ela seguiram dali para outros parceiros e projetos. Eu mesmo tenho lançado por outros selos e tenho o meu próprio, Another Picture, desde 2014.


 


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HM - Eu lembro que o começo desta década foi marcado pela ascensão de algo que todos convencionaram chamar de “Deep House”. Como alguém que manteve a tradição germânica bem inovadora naquele terreno e sólida por um bom tempo (junto a Lawrence outros), como foi ver a House Music alemã repentinamente sendo associada de modo instantâneo a esse modismo?

LOUSOUL -
Eu estava na pegada da (Deep) House Music desde muito cedo (pense no final dos oitenta) mas sempre me mantive focado em minha própria música desde que comecei. House e Techno, entre outros gêneros eram parte disso. Quando chegamos ao período que você menciona havia esse revival do House do Techno e muitos artistas mais jovens descobriram a energia desses estilos, deixando-os impregnar seu trabalho. Eu gostei em grande parte e fiquei feliz de curtir novamente.

Por vezes ficava entediado, já que algumas faixas foram feitas para copiar a sonoridade original na totalidade sem adicionar muitos novos aspectos. A mesma coisa vale para o Techno. Dá para afirmar que toda musicalidade é influenciada por outra. Quando comecei a produzir eu gostava muito de Disco, Funk, Soul, Jazz dos setenta o que me proveu muito. Mas nunca tentei apenas fazer a mesma coisa. Isso seria perda de tempo, sempre deve haver a visão para que você possa fazer algo novo.


 


HM - Já que passamos por esse tema, há alguma tradição mais ampla de música alemã à qual você se sinta mais próximo?

LOSOUL - Eu não me atenho a uma ideia nacional ou mesmo patriótica. Há pessoas de várias nacionalidades na minha família e alguns deles vivem fora do país. Então eu cresci com uma mente muito aberta culturalmente. Entretanto, para um artista pode se apresentar a opção de representar uma imagem do que é associado ao seu país internacionalmente, creio eu. Pensando na música alemã as obras clássicas do Krautrock, Kraftwerk claro, e a Neue Deutsche Welle vêm à mente.O motivo pelo qual gosto destes é porque desempenharam aquele “papel alemão” e lhe proveram um aspecto divertido: confiante mas, ao mesmo tempo, não muito sério. E muito disto era música verdadeiramente inovadora. Eu gosto disso.


 


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HM - Como alguém que sempre foi renomado pela economia elegante de elementos em suas composições ainda que retendo retendo um bom swing, como você definiria algo tão forte e elementar em seu trabalho como o “groove que suas faixas possuem? hea alguns truques ou expedientes aos quais você se manteve fiel no decorrer da carreira ou o seu processo se modificou totalmente nesse vinte anos?

LOSOUL
- Hehe… Sim, há algumas sacadas que nunca deixaram meu estúdio desde o começo.... se quero revelá-los? Aqui vai um: se você está no processo de produção e encontra um bom momento de groove e vibe, então deixe-os onde você encontrá-los. Pode ser o caso de não haver nenhum gancho ou vocal pegajoso. Mas antes de você tentar adaptar a regras que nem sabe de onde saíram e por quê foram criadas, mantenha sua ideia quente. Isto da à sua música uma verdadeira chance de se destacar. Todo o resto estará lá quando você e seu público estiverem. Cuide do que é seu.


 


HM - Quais são suas principais fontes de inspiração? Elas vêm em sua maioria de dentro ou fora do ambiente da pista?

LOSOUL - Bem, isso não é fácil de responder… Na verdade a inspiração pode estar em toda parte e eu procuro manter essa parte do processo não muito organizada. Às vezes vejo pessoas fazerem seu trabalho criativo seguindo estruturas dadas que são sempre muito parecidas. Não quero me entediar comigo mesmo e imagino que os resultados possam ficar enfadonhos dessa maneira também. Então prefiro assumir o risco de experimentar aqui e acolá. Acho que é melhor apresentar algo que você mesmo vivencia originalmente.

Então às vezes é apenas o caso de eu transar gostoso e ainda sentir aquele balanço e tentar usar aquilo no meu processo criativo. Outros dias o sexo não é tão bom e preciso me livrar daquele sentimento, superá-lo.

Mesmo assim, eu estive envolvido com música e suas entranhas por um bom tempo agora e ouvi um monte de música que continua ecoando dentro de mim como um tesouro profundo da cultura humana, com toda sua luz e escuridão. Também minha vida dentro e fora da pista é tão repleta de impressões, sejam sensuais ou intelectuais, que todas essas coisas se juntam como se fosse uma receita para cozinhar uma boa refeição. Ao fim e ao cabo é mais acerca de manter a simplicidade, já que a música é uma linguagem universal.


 


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