Vai ter Tomorrowland no Brasil em 2018? Uma (não tão) breve reflexão - 11/07/2017

Por: Lucas Arnaud


O Tomorrowland Brasil se tornou o festival mais querido por muitos fãs de música eletrônica no país. Em 2015, os organizadores do evento trouxeram a temática "The Book Of Wisdom", cujo palco (aquele com um grande livro no centro) se tornou ícone do festival, principalmente por sua presença no aftermovie de 2012 (que é considerado por muitos o melhor aftermovie do evento até hoje). Com um line insano (e estrutura impecável), o Tomorrowland Brasil 2015 foi, muito provavelmente, o evento de maior relevância em música eletrônica mainstream já realizado na história do país.

Em 2016 tivemos a felicidade de receber novamente o festival, com o tema "Key To The Happiness". Apesar de ter trazido com sucesso a magia Tomorrowland para nosso país, a edição BR de 2016 lidou com diversos obstáculos. Um deles foi a alta do dolar em 2015 (atentar que grande parte dos custos do festival são pagos no ano anterior). Outro foi o incêndio que ocorreu no segundo dia do festival (em terrenos próximos às rodovias que iam até o festival), no qual o município de Itu não ofereceu suporte, tendo a própria equipe do festival que solucionar o entrave. O resultado, segundo revelou Luiz Eurico Klotz (o responsável por trazer o evento ao país), foi que o Tomorrowland Brasil 2016 deu prejuízo. E esse foi um dos principais motivos para o evento não ter voltado em 2017. Você pode entender todo esse histórico do evento e sobre o que Luiz Klotz falou em nosso artigo "O dia em que o pai do Tomorrowland mandou a real". Vale notar que Luiz nunca confirmou, em palestra, que realmente haveria TM BR 18. Porém, disse que não seria uma ideia DESCARTADA, e que, *se rolasse*, o tema seria Elixir of Life.

Agora que passeamos (brevemente) pelos highlights da história do Tomorrowland Brasil (TM BR), vamos ao que interessa. A pauta "Tomorrowland Brasil" estava praticamente morta há alguns meses, visto que Luiz Klotz afirmou que a Plus Network (agencia responsável pela TM BR) iria investir em novos e menores festivais. E isso realmente ocorreu: vimos o Electric Zoo em São Paulo (que trouxe nomes como Hardwell e KSHMR) e o The Milkshake festival, que teve uma proposta inovadora, com evidência na diversidade.

Apesar disso tudo, no último mês começaram a surgir mais e mais noticias (muitas vezes desconexas) sobre a possibilidade de rolar a TM BR 2018. Para citar alguns exemplos, a Skol promoveu uma festa com tema Tomorrowland, na qual Alok foi a atração principal - e o prefeito de Itu afirmou que haveria até 80% de chance do festival ocorrer em 2018, nesse vídeo: 

 


 

Esses dois fatores realmente nos levam a pensar na possibilidade do festival voltar em 2018, mas há ressalvas. Sobre a festa da Skol, é importante atentar que, segundo relatos dos presentes nesse evento, em nenhum momento foi falado sequer sobre a possibilidade de uma TM BR 18. A decoração e a temática "Tomorrowland" se inseriam ali muito mais como um teaser dos sorteios de ingressos para a TM belga 17 (que seriam realizados ali mesmo na festa), do que como indicativos do anúncio de uma TM BR.

A declaração do (novo) prefeito, por outro lado, é importante para entendermos a viabilização do festival em Itu. Uma frase dita por ele (que foi relativamente negligenciada por outros veículos especializados, diga-se de passagem) seria: "o modo como eles (os organizadores do TM BR) foram tratados aqui os afastou da cidade". E é verdade. Ainda no nosso artigo "O dia em que o pai do Tomorrowland Brasil mandou a real", Luiz nos fala que alguns dos maiores entraves à realização do evento vieram das autoridades de Itu. E isso é bem explicitado nesse fragmento do artigo: "Algumas dificuldades demonstradas foram a recusa da Polícia Civil em montar um posto especializado no evento (pois isso supostamente aumentaria as ocorrências de crimes nas estatísticas do município) e a adoção de uma alíquota de arrecadação do município maior que o comum (ou seja, os políticos da região decidiram cobrar impostos por uma taxa maior que a utilizada normalmente). A conclusão é interessante: Luiz nos demonstra que o município aparenta querer que você desista do evento."

Uma mudança na postura das autoridades quanto a realização do evento é extremamente bem vinda, ainda que a afirmação do prefeito de que há "80% de chances" seja um tanto imprecisa. O que mais importa aqui é o fato de a conversa (para o evento voltar) realmente existir desde Janeiro.

Outros fatores contam a favor da volta do evento. Um deles é o contrato da organização com o Parque Maeda, que ainda está vigente (sim, aquele famoso contrato de 5 anos). Outro, seria o timing do evento (que ocorreria, muito provavelmente, em Abril de 2018). Essa data é importante, pois haveria um embate estratégico com outro grande festival em nosso país, o Ultra Music no Rio. Muitas pessoas optariam por ir à TM BR logo no inicio do ano (e, portanto, gastar seu dinheiro com esse festival) em detrimento do Ultra Rio 2018 (que normalmente ocorre em Outubro). Soma-se a isso o fator "hype", visto que muitos fãs estão com saudade do evento no país, além de que várias das pessoas que perderam as duas edições passadas dariam tudo para ir em uma nova edição.

Além disso, deve-se notar que a estratégia da Plus Network de investir em eventos pequenos é uma faca de dois gumes. É vantajosa pois requer menos investimentos e particiona o risco lucro/prejuízo entre os eventos. Por outro lado, a realização de eventos menores traz algumas limitações. Por exemplo: é menos provável que pessoas viagem para eventos de menor duração e com menor número de atrações. Soma-se a isso os contratempos no Electric Zoo Brasil, que teve problemas nos sistemas de som do palco principal. Tudo isso poderia reacender, na agência, a estratégia de investir (principalmente) em um grande festival.

O outro ponto a ser considerado é o valor do dólar (visto que o cachê de muitos DJs é pago em dólar). Em 2014 tivemos a época ideal em se falando do custo do dólar, que estava em torno de 2 reais. E esse é um dos motivos da TM BR 15 ter sido tão grandiosa (com um imenso line de muuuitas grandes atrações internacionais). Em 2015, houve aquele aumento abrupto na cotação do dólar. A grosso modo, podemos dizer que o valor foi de 3,3 até 4 reais. Isso ajuda a explicar a estratégia adotada na TM BR 16, que teve seu line prejudicado em nomes internacionais e precisou "se virar nos 30" com os artistas nacionais (que recebem em real). Isso também ajuda a entender porque o evento teve prejuízo, como já explicitado no começo deste artigo. Em 2016, o dólar se manteve entre 3,8 e 4 reais, inviabilizando a edição 2017 do festival, como nós bem sabemos. Em 2017, a cotação da moeda americana parece ter estabilizado por volta de 3,3 reais (e volto a dizer, tudo isso é *a grosso modo*). E a conclusão aqui é um tanto neutra. Há possibilidade da realização do festival com esse valor de dólar? Sim, como nos prova a edição de 2016. Mas seria o cenário ideal? Não, visto que ainda assim é uma cotação bem superior ao valor de 2 reais de 2014, e devemos lembrar que a edição de 2016 teve prejuízo.

Minha intenção com esse artigo seria juntar e organizar todo o bombardeamento de informações sobre esse tema que ocorreu nos últimos dias e estabelecer uma análise cética sobre a real possibilidade da TM BR ocorrer em 2018. A verdade óbvia é que não há como se afirmar com certeza se o evento ocorrerá ou não no país. O que me parece, é que tudo isso dependerá (ainda) do desenrolar das negociações com as autoridades de Itu e das estratégias para diminuir o "custo-Brasil" implicado na organização o festival. 

Pessoalmente, sou otimista quanto a possibilidade da volta da TM BR (pelos motivos que desenvolvi acima), e nesse contexto, surgem rumores de que há movimentação de papelada para a viabilização burocrática do evento, e até mesmo de que Alok anunciaria a TM BR 18 no mainstage da edição belga de 2017, que ocorrerá em poucos dias. E é claro que tudo isso está longe de ser confirmado. Portanto, continuo aqui na torcida para a volta do Tomorrowland Brasil, possibilidade esta que, "para nossa alegria", parece ser cada vez mais plausível.

 

 

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