O futuro é agora? Conheça três startups brasileiras que estão inovando a cena eletrônica - 04/10/2017


Da redação


Talvez o nicho musical que mais cresceu e se consolidou neste século, a música eletrônica — não é novidade pra ninguém — gira hoje em torno de um mercado que movimenta bilhões de dólares por ano. Centrado na figura dos DJs/produtores, esse mercado naturalmente passou a desenvolver profissões periféricas para se firmar: temos incontáveis managers, empresários, promoters, donos de clubs, produtores executivos, jornalistas que se especializaram para atuar nesse cenário.

No Brasil, igualmente sabemos, as coisas costumam andar mais devagar do que no hemisfério norte, e é por isso que agora que vemos por aqui o surgimento, ainda tímido, de outro tipo de atividade profissional focada na cultura da dance music: as startups. Tão comum no mundo empresarial, o termo que é utilizado para se referir a empresas em estado inicial, normalmente vinculadas à tecnologia e com proposta inovadora para o mercado, deve passar a ser cada vez mais comum no universo da música eletrônica brasileiro. Observando esse modesto — mas já facilmente perceptível — movimento de startups que atuam nesse nicho, a House Mag investigou mais de perto três dessas empresas que surgiram, sim, para preencher lacunas do mercado, mas, sobretudo, que foram construídas por pessoas que têm em comum o amor à camisa da cultura eletrônica.






GIGLOOP


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Fundado em maio de 2015 por Felipe Callado e Fabio Gelbcke, o Gigloop talvez seja a startup mais conhecida entre as três. Trata-se basicamente de uma plataforma para facilitar o booking de DJs. Quase uma rede social com três tipos de cadastro — o de artista, o de contratante e o de agência —, o Gigloop dispõe de todas as ferramentas necessárias para esses três tipos de profissionais se acertarem de maneira mais simples e desburocratizada. “Como produtor de eventos e DJ, eu sentia na pele a dificuldade e a burocracia que existia para se contratar artistas”, afirma Callado. “Ainda se contrata DJs e músicos da mesma forma que se reservava hotel há 20 anos, ou seja, tudo por e-mail ou telefone. Hoje, basicamente todo grande mercado já possui soluções modernas, que conseguiram se beneficiar da tecnologia para revolucionar a indústria. Airbnb, eBay e Uber são alguns dos maiores exemplos de sucesso disso, e vejo que podemos conseguir trazer o benefício da tecnologia e conectividade para a contratação de DJs”, diz.


 



 


A empresa catarinense se destacou tanto que teve o privilégio de ser uma das 70 selecionadas em 2017 para o French Tech Ticket, programa de aceleração de startups promovido pelo governo francês. “Essa seleção foi um passo muito importante para nós, pois conseguimos entrar no maior mercado para a música eletrônica, que é a Europa. É a segunda edição deste programa, que tem acontecido uma vez ao ano e seleciona 70 startups do mundo inteiro para virem à França por no mínimo um ano, receberem um aporte financeiro e serem incubadas em uma das aceleradoras parceiras. Paris é um dos maiores ecossistemas para startups do continente. Esse impulsionamento vai nos trazer mais velocidade, recursos e soluções, pois vamos continuar atuando no Brasil e fora, como já fazíamos”, continua o CEO, salientando que o objetivo da empresa é atuar no mundo inteiro.

Callado também revela o surgimento de uma nova ferramenta, para facilitar ainda mais as contratações de artistas que se encontram em turnê. “Estamos hoje também desenvolvendo uma ferramenta de tour, que vamos conseguir ajudar as agencias a fazer turnês de seus artistas. Vamos cruzar os dados dos contratantes baseados nas ultimas contratações, nos valores médios gastos com atrações, tamanho dos eventos, e notificar eles toda vez que um artista daquele perfil estiver em turnê pelo Brasil. Isso irá fazer com que os clubes e produtores sempre saibam quem estará em turnê.”

A Gigloop conta atualmente com mais de dois mil artistas, de mais de 40 países diferentes, e mais de 300 contratantes em sua plataforma. Além da aceleração francesa, a startup tem realizado diversas turnês pelo mundo nesses dois anos. E seguem acelerando, mesmo com as já bem conhecidas tentativas do Brasil em colocar o pé no freio. “Empreender no Brasil é sempre desafiador. No nosso caso, além de todas as burocracias, temos um grande entrave na parte que requer a transferência de valores para outros países, que aqui no Brasil é especialmente cheia de regulamentações, e consequentemente mais cara.”






SOCIAL WAVE


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Quem concorda que o Brasil é especialista em “desacelerar” as empresas é Ilan Kriger, DJ, produtor musical, fundador/ex-professor da AIMEC e sócio de Bernardo Buschle (mais conhecido como o DJ BERBUSH) no Social Wave, startup pensada para desenvolver os laços entre fã e evento musical. “Com certeza no Brasil tem muita burocracia, impostos muito altos, é complicado iniciar uma empresa como uma startup. A startup é diferente de uma empresa tradicional, como uma pizzaria. Na startup é tudo basicamente suposição, então tem muita chance de dar errado. Fazer isso no Brasil é pra poucos: tem que ter sangue frio pra colocar uma na rua”, declara o empresário, que enxerga, porém, uma vantagem no Brasil em relação aos outros países: “Nosso universo de festas é muito bom. Diferentemente dos Estados Unidos, em que as festas têm horário pra terminar, aqui tudo dura mais tempo, as pessoas se divertem com a intensidade que deveriam”.

O curitibano conta que o Social Wave surgiu depois de muito tempo de estudo, aprendizado, tentativa e erro. A ideia inicial, nascida no fim de 2014, consistia em um projeto de coworking de música, que não vingou. Em 2015, criaram um market place para produtores, no qual perceberam que a ideia que realmente vingaria seria a atual: uma ferramenta para instaurar e premiar os embaixadores de eventos. 

Os embaixadores são os grandes fãs de determinado evento, escolhidos para disseminarem esse evento entre os amigos. Fazendo isso, ganham prêmios, que vão de ingresso na faixa a visita a camarim de artista. Em março de 2016, portanto, nasceu essa ideia com o Social Wave, que se encontra hoje no seu terceiro processo de aceleração — o segundo feito na ACE, considerada a maior aceleradora de startups da América Latina.


 



 


“A gente sentia que o mercado estava muito carente de inovação, e cabia algo que poderia engajar muita gente, gerar vendas de ingressos, mídia... Mas nossa motivação maior é que a gente gosta de festa e quer ajudar os produtores de evento a encher festas, fazer festas boas, animadas. E também colocar no centro a ideia do cliente colocado no pedestal, que é o que a gente faz quando transforma um fã num embaixador”, segue Kriger, lembrando que, apesar de terem começado naturalmente mais próximos da cena eletrônica, não limitam sua atuação a ela: o Social Wave tem clientes que vão de Green Valley, Warung Day Festival, Só Track Boa e XXXperience a eventos de música sertaneja, como o Country Festival.

“A gente sente que os embaixadores são o futuro do mercado. E o que os motiva muito bem são os prêmios de experiência. Tem embaixador que vai ao camarim conhecer a Ivete Sangalo, o Hardwell, o Alok, o Vintage Culture; tem os que assistem a show em cima do palco, os que já ganharam violão autografado de dupla sertaneja... É uma relação ganha-ganha para todos, porque o cara que muitas vezes combinava de ir num evento com o amigo, sem ganhar nada, vai ganhar esses prêmios, e também ganha uma voz, porque a gente coloca ele em contato direto com os produtores do evento — ele vira quase um sócio! E o produtor, com isso, consegue potencializar sua divulgação e ter fãs mais fidelizados”, conclui.


 



 




ONNi


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É do Rio Grande do Sul que vem nossa terceira startup. Formada por atualmente três sócios — Cristhian Cagliari Carniel, Guilherme Lara e Daniel Scomazzon —, e composta por uma base de 40 mil usuários, a ONNi surgiu em dezembro de 2016 para resolver um dos problema mais clássicos de festivais e casas noturnas: as infames filas. “O tempo médio gasto em filas de grande eventos no Brasil pode chegar a duas horas. Para o ingresso, o problema já está resolvido faz anos, através das bilheterias digitais. Já no consumo, ou o evento trabalha com tickets impressos, solução que faz com que o cliente se dirija toda vez ao caixa e depois ao bar, ou trabalha com cartões ou pulseiras cashless, recurso caro e que faz o cliente passar pelo menos uma vez no caixa para carregar créditos no cartão, para depois consumir no bar. A nossa proposta é eliminar a fila do caixa e ser uma solução barata para a produção do evento”, conta Cristhian.

Mesmo se tratando de um problema tão comum, o sócio-fundador da ONNi conta que a iniciativa é a primeira do tipo no país. “Somos a primeira plataforma inteiramente na nuvem que une a compra de ingresso e de consumo nesse formato. Já existem alguns negócios voltados à solução do problema das filas, mas ou eles envolvem hardware ou é necessário integrar com outros sistemas, deixando o processo mais caro e complexo”, explica.


 



 


A ONNi funciona, basicamente, como um aplicativo — que pode ser baixado gratuitamente — que centraliza as compras de ingresso e consumo do bar. Cada produto adquirido virtualmente gera um QR Code, que é apresentado pelo usuário na entrada ou no bar do evento, validando a sua compra. “Além do benefício de não enfrentar mais a fila no caixa, o aplicativo é uma espécie de agenda direcionada, pois os usuários recebem informações sobre os eventos mais próximos e que tenham a ver com o seu perfil”, segue Cristhian, que também revela que a base de atuação do app é, naturalmente, no seu Estado, mas que já estão implementando a expansão para Santa Catarina, Paraná e São Paulo — e tendo a cultura clubber no mirante.

“O princípio do projeto sempre foi criar uma marca que se relacionasse com a cena eletrônica por dois motivos: éramos entusiastas dessa cultura e queríamos que o negócio tivesse alma, então tínhamos que ser sinceros na nossa comunicação; e por se tratar de ser um gênero em alta ascensão no Brasil e consolidado em outras partes do mundo. A música eletrônica tem uma essência universal, e o nosso objetivo é impactar o maior número de pessoas possíveis a nível mundial”, continua. “O projeto de curto prazo também é criar relacionamento com outros gêneros, como hip hop, pop e música popular brasileira. Entretanto, institucionalmente, a ONNi continuará valorizando a cultura DJ e se comunicando com a personalidade que criamos para ela, desde o dia que ela nasceu.”


 



 


Assim como nos casos do Gigloop e do Social Wave, a ONNi também foi selecionada para programas de aceleração: a ideia passou pelo Núcleo de Inovação da UFRGS, e mais recentemente foi uma das dez startups selecionadas pelo programa Startup Scale, do Sebrae-RS. “Acredito que estamos vivendo um momento em que há uma forte visão de negócios por parte das startups brasileiras. Prova disso são as tupiniquins Nubank e GuiaBolso, que figuram entre as startups mais inovadoras do mundo, bem como os fundos de investimentos brasileiros, que estão com a atenção voltada aos negócios com modelos de rentabilização bem desenhados e com potencial de escala a nível global”, conclui Cristhian, projetando um panorama desse cenário de startups a curto prazo. “O mercado de aplicativos não é nada novo no Brasil. Se conversarmos com um grupo de dez profissionais de tecnologia da informação, provavelmente cinco deles já desenvolveram um aplicativo próprio com uma ideia incrível. Acontece que um aplicativo com uma ideia incrível não ganha mercado e conquista usuários se seu foco for apenas no produto em si. Para ter viabilidade, é necessário que todos os pilares do negócio estejam bem amarrados com a estratégia organizacional. É necessário ir mais além e se relacionar genuinamente com o seu público.”


 


 


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