Batemos um papo com Radio Slave, que toca na Tantsa em São Paulo essa semana, confira! - 09/10/2017


Por: Chico Cornejo


Matt Edwards é um camaleão num ambiente repleto de dois tipos de criaturas: ou extremamente originais ou entediantemente repetitivas. E, dado sua natureza incansavelmente mutante, ele não tem como ser enquadrado entre estas últimas, se destacando entre as primeiras. E esta habilidade inata não é meramente reativa ou adaptativa, ela é algo inerente a um artista que se mantém na dianteira de muito do que consideramos digno de ser dançado atualmente.

Já contando inúmeros talentos descobertos pelo seu selo e uma série lançamentos que entraram num panteão seleto de recursos musicais de DJs pelo mundo todo, ele retorna ao Brasil em um novo momento de sua carreira, uma que se estende por quase duas décadas e percorreu por dentro o cenário musical dançante mundial.

Nesta entrevista, ele discorre um pouco sobre os caminhos que o trouxeram até aqui e revela pensamentos e sentimentos que sustentam tudo que nos espera nesta próxima Tantsa.


 


HOUSE MAG - Desde os começos do seu primeiro selo, o South Circular, até hoje, houve profundas mudanças na paisagem musical e você parece ter passado por elas com uma consistência que poucos puderam exibir até hoje. Qual tem sido o impulso subjacente, na sua opinião, agora com a vantagem da experiência?

Eu vivi por quase 30 anos em Londres, então minhas raízes são os sons da periferia. Crescendo no final dos setenta e começo dos oitenta eu tive a oportunidade de experimentar uma explosão musical que ia do Electro dos primórdios até o romantismo do Duran Duran e de bandas como o New Order, então essa sonoridade ficou comigo por toda minha jornada como produtor e eu ainda sou fissurado pelo que Trevor Horn e Nellee Hooper fizeram, além de amar o som do Mad Mike e de Detroit em geral. Mesmo que as modas venham e vão, eu continuo a amar a mesma música que me encantava na adolescência. Fora que ainda me sinto como aquela criança numa loja de doces quando estou comprando discos.


 


HM - Através dessa trajetória que recobre uma vida, você guarda alguns períodos musicais como prediletos de uma forma mais geral ou você rechaça qualquer tipo de nostalgia?

Esta resposta está no que acabei de dizer: eu amo especialmente os oitenta. Essa época de experimentação verdadeira entre a música dançante a música pop. Ainda ouço muitos dos álbuns desse período, como "So" do Peter Gabriel e sou um grande fã da Kate Bush.


 


HM - O Rekids tem se mantido como uma plataforma segura para que uma variedade de novatos estabeleçam sua contribuição em meio a um cenário musical cada vez mais povoado. Ele foi pensado deste modo desde o início ou acabou ganhado uma vida própria no decorrer dos anos?

Ele sem dúvida se tornou isso, ainda que não houvesse uma visão clara desde o começo. Acho que só quero ajudar artistas que admiro e, se ouço algo ou encontro alguém e rola aquela ligação, então se torna quase uma missão para mim dar um empurrão em sua jornada musical. Isso foi exatamente o que aconteceu com a Nina (Kraviz) e eu me sinto muito orgulhoso de ver o que ela se tornou nestes últimos dez anos.


 


HM - Além de ter lançado gente de toda parte, o selo também explorou uma vasta gama de gêneros dentro da Dance Music. Qual é o maior desafio por trás da coesão de um catálogo tão eclético?

Bom, eu gosto de pensar que você pode ligar os pontos com qualquer tipo de música e sempre notei que meus DJs favoritos possuem gostos incrivelmente diversos, o que pode passar pelo Jazz, Ambient, Techno e tudo que você encontra no meio. Afinal é tudo música e eu tento não ficar preso em gênero algum.


 


HM - Para um artista que também manteve uma presença bastante profícua e diversa, o projeto Radio Slave parece ter sido favorecido ultimamente. Foi uma escolha consciente, fruto de um plano, ou foi produto das circunstâncias?

Essa alcunha sempre foi a prioridade. É o nome com maior alcance e já o tenho usado por 16 anos, então faz todo sentido continuar utilizando-o. Também creio ter finalmente descoberto o que significa este artista/persona e já planejo um segundo álbum para 2018 que levará as coisas de volta a quando iniciei o projeto em 2001.


 


HM - "Feel The Same" é um álbum que também demonstra essa diversidade. Você poderia falar um pouco mais a respeito do álbum e de seu lugar na vida desse projeto?

O LP nasceu daquilo que eu estava ouvindo e sempre senti que tivesse um estigma negativa sobre o álbum feito por um DJ/produtor. A maior parte é feito às pressas, feitos para ter mais contratações e não são muito pessoais. Assim, tentei trazer o ouvinte para o meu mundo e sempre quis que o álbum fosse um experiência auditiva, não apenas uma coleção de faixas.


 


HM - Você não é nenhum novato nas pistas brasileiras e visitou o país em diferentes momentos de sua carreira. Qual sua impressão de nossa cena até aqui? Foi possível notar ou sentir alguma mudança significativa a cada vez que retornou e que valha ser comentada?

Eu só vejo a cena crescendo e evoluindo. É um movimento mundial e sempre apreciei visitar o Brasil. Só queria que fosse mais perto de Berlim!


 


HM - Agora com referência a nossa música, ela teve alguma influência direta sobre você de alguma forma, seja como artista ou amante da música?

Sempre fui um grande fã de música brasileira e, no Reino Unido, DJs como Gilles Peterson exploravam essa musicalidade em Londres desde os oitenta, assim eu sempre fui exposto aos sons do Brasil nos clubes e, claro, lancei meu álbum como Rekid pela Soul Jazz, que é uma loja repleta de música fantástica da América do Sul.


 


HM - Já que estamos falando de lugares e suas tradições musicais, falemos de lar. Há quanto tempo você já vive em Berlim e de onde você é originalmente? Você já considerou voltar para sua terra natal ou se mudar para outra parte?

Já tenho Berlim como minha base por dez anos e definitivamente não vou me mudar de volta para Londres, minha cidade natal. Minha família está aqui, meus amigos estão aqui e ainda amo atmosfera daqui. Pode não ser a cidade mais bonitinha ou limpinha do mundo mas é divertida e claro que temos a melhor vida noturna do mundo, além do Berghain.


 


HM - Terminemos então com algumas palavras de sabedoria para a juventude, que tal? Há algum conselho que gostaria de compartilhar com as novas gerações deste momento de sua carreira?

Não se apresse. Aprenda seu ofício. Estude bastante para que consiga fazer o máximo com o mínimo de equipamento ou mesmo um computador apenas e tenha tempo para experimentar e encontrar seu próprio som.