Entrevista exclusiva: Art Department segue sendo guiando por Jonny White com sabedoria - 11/10/2017

Por: Alan Medeiros


Jonny White é conhecido no mundo da música como Art Department desde 2009. Ao lado de Kenny Glasgow, ele posicionou o projeto como um dos expoentes da dance music de vanguarda ao redor do globo, isso graças ao trabalho frente a No.19 Music e lançamentos em selos como Crosstown Rebels, Avotre e ULTRA. 

Sunday Grey, Catch You By Surprise e Full Circle são alguns dos maiores sucesos do catálogo do projeto e trazem em suas batidas um ar melódico e uma atmosfera que flutua entre o house e o techno.

 


 

 

Por aqui, Jonny foi capaz de criar um laço especial com as pistas que passou: "O Brasil está sempre na lista de tours que devem acontecer antes do ano acabar", relata o DJ e produtor canadense. Sua últma aparição em solo verde e amarelo foi em Setembro, no Warung Day Party, mas ao contrário do que vinha acontecendo recentemente, dessa vez ele não demorou e já tem data marcada para retornar. No próximo fim de semana, Jonny desembarca no Rio de Janeiro para se apresentar no Resistance, no Ultra Brasil. 

Aproveitamos a presença dele no país para desenrolar um bate-papo daqueles que só é possível com artistas que possuem uma bagagem semelhante a de Jonny. Confira abaixo:





HOUSE MAG - Olá, Jonny! Obrigado por nos receber. Antes de tudo, um pouco sobre sua recente tour. Você sentiu alguma diferença de sua última passagem por aqui? Como foi o Warun Day Party? Você tentou algo novo?

ART DEPARTMENT -
 Olá, o prazer é meu. Gostei muito da tour, fazia muito tempo desde a minha última vez, então foi uma viagem especial. A festa de dia, em que toquei às 8h, foi excelente. As pessoas já haviam passado por quase um dia quando cheguei de Ibiza, mas a energia ainda estava alta e a festa ainda estava cheia. Foi diferente? Eu não tenho tanta certeza. Acho que o Warung sempre será incrível, talvez um pouco mais emocional para mim depois de tanto tempo e acho que o Garden se tornou mais emocionante nos últimos anos. Foi bom ver todos os meus amigos e a equipe do Warung. Foi muito legal manter o Garden aberto um pouco mais tarde do que o habitual também.





HM - Recentemente eu conversei com Nitin e ele me disse que a cena no Canadá varia muito de cidade para cidade. Na sua visão, como resumir o atual mercado da música eletrônica no país e quão especial pra você é tocar no Canadá?

AD -
 Na verdade, não sinto que seja o meu lugar para poder falar. Passei tão pouco tempo em casa depois que me mudei para Barcelona e viajando sem parar nos últimos 8 anos, não acho que eu possa avaliar o que está acontecendo. Apenas vou concordar com meus olhos e ouvidos por lá, Nitin.





HM - De que forma estar a frente da No.19 contribuiu para uma melhor visão da cena enquanto negócio? Quão desafiador é manter um padrão de qualidade dos lançamentos e ainda assim soar artisticamente forte?

AD -
 Pergunta interessante. Para mim, o principal foi focar apenas no A&R e não me permitir ficar muito preso no lado dos números. Pode parecer tolo, porque pode ser prejudicial ignorar aspectos do negócio, mas também pode ser desanimador e ruim para o A&R, se você prestar muita atenção. Há pensamento por trás desta abordagem. Tenho sorte de ter uma boa equipe, e, claro, Nitin que agora está mais envolvido, para que eu possa voltar e me preocupar apenas com a música. Sobre labels no mercado, ninguém está ganhando uma tonelada de dinheiro. Há oportunidades de ganhar dinheiro com syncs, ou com as diversas plataformas de transmissão, mas sou o primeiro a admitir que não estamos lançando música que se presta a estas playlists que levam música para esses números. Portanto, embora a indústria e nossa música tenham crescido exponencialmente, os negócios tem ido na direção oposta, no que diz respeito a lucrar com os lançamentos. Eles atuam mais como uma ferramenta promocional para o artista e para a sua marca.

Então, a No.19 está se aproximando do seu 10º ano, em 2018. Para nós, continuamos fazendo isso porque amamos promover a música e os artistas em quem acreditamos, em vez de usar isso para alcançar o mercado - vocês entendem o que estou dizendo? Não estou dizendo que nunca cometi erros com o A&R ou que não mudamos de direção várias vezes ao longo dos anos, mas essa consciência do mercado atual e ignorá-lo é todo o controle de qualidade que você precisa.





HM - Você já deve estar cansado de responder perguntas sobre Kenny Glasgow, mas acredito que essa seja importante para o público brasileiro: quão diferente o AD está no aspecto artístico desde a saída de Kenny? Quais foram as principais mudanças sonoras lideradas por você nesse período?

AD -
 É bem diferente agora, com certeza. Quando nos separamos, estávamos em lugares muito diferentes musicalmente. Eu estava muito focado no DJing e uma direção que era mais sobre onde minhas próprias raízes estavam na música eletrônica, que era um som mais reto, dubby, techno e house, enquanto Kenny estava exclusivamente focado em seu próprio som no estúdio e em seu álbum solo. Naquela época, estávamos em caminho de diferentes direções em muitas formas, então, quando nos separamos, continuei no caminho em que eu estava, e esse se tornou o "novo som" para o projeto. O incrível é que eu e Kenny recentemente fizemos dois sets b2b depois de anos separados e, de alguma forma, sem nos influenciarmos, estamos tocando estilos de música muito parecidos, é completamente diferente do que tocávamos juntos anos atrás. Acho que isso realmente diz algo sobre nossa conexão musical e como a música é uma jornada interessante e muito pessoal para todos.





HM - Sabemos que sua relação com as pistas brasileiras é algo realmente muito especial, não é mesmo? O que o público brasileiro tem de melhor? O que mais te motiva quando seu agente o avisa que haverá uma tour pelo Brasil? 

AD -
 Sim, com certeza. Sempre tive um relacionamento muito especial com o Brasil, os fãs, os promoters e proprietários de clubes. Ultimamente, foi muito difícil encontrar tempo, pois eu tinha baseado 2017 em tours europeias, mas o Brasil está sempre na lista de tours que devem acontecer antes ano acabar. Felizmente, pude voltar ao país algumas vezes antes do ano acabar, depois de estar longe por quase um ano. Senti falta disso.

 


 

 

HM - Fazer mais de 100 shows por ano certamente exige um esforço físico e mental muito grande. Como manter-se fresh e atualizado em meio a uma rotina tão cansativa?

AD -
 Eu não acho que eu seja a pessoa para perguntar sobre isso. Tento ir para a academia quando estou em casa, mas desisti de tentar treinar quando estou viajando. Como saudável na maior parte do tempo... Mas, por exemplo, jantei pizza e almocei macarrão hoje porque estava em Veneza com amigos. É tudo equilíbrio. Quando sinto que estou me esgotando, tomo cuidado com as bebidas e festas, e presto mais atenção na minha saúde. Tudo que você pode fazer é ser consciente quanto a sua saúde, sem ser muito rigoroso para não perder toda a diversão.

 

 


 


HM - Grandes festivais ou clubs underground. Qual dessas duas plateias deixa você mais confortável enquanto DJ?

AD -
 Clubes. Me sinto confortável em ambos cenários, talvez até mais confortável em um cenário de festival agora - no final do verão, quando eu toco em mais festivais do que em clubes. Mas, como DJ, grande parte da inspiração improvisada vem daquela interação com a pista e de poder ler o espaço, o que é difícil em um festival. Eu sou bastante atento à energia em um clube. Ter essa informação me deixa mais confortável com riscos e minha programação. 




HM - Desde o primeiro lançamento do Art Department já se passaram quase 10 anos. Olhando para o futuro, o que você mira em termos de conquistas e novidades para o projeto?

AD -
 10 anos?! Passou rápido. Acho que era 2010 na verdade, então ainda tenho alguns anos. Não busco por mais conquistas. Quando eu era mais jovem, é claro que queria alcançar um nível de sucesso e tive a sorte de superar as esperanças que eu tinha para o sucesso nesta indústria. Não vou dizer que nem sempre estou com fome de mais, mas cheguei a um ponto em que não estou buscando por nada em particular. Estou tentando aproveitar esse caminho como um artista, não um artista que é um DJ no meio de um mar de outros DJs. Apenas aproveito minha própria viagem e vejo quais as oportunidades que se apresentam.




HM - Qual é exatamente o seu papel com a Music Against Animal Cruelty?

AD -
 MAAC é uma instituição de caridade que comecei com os meus parceiros, Wade Cawood e Jack Baucher do Tears For Tigers. Meu papel é bastante amplo, já que começamos tudo agora, mas isso inclui a criação de conscientização, reunião com potenciais embaixadores para a organização, seja artistas ou marcas e organização de iniciativas de arrecadação de fundos, seja eventos ou criação de conteúdo. Minha principal responsabilidade no momento é me educar o máximo que puder, falando com conservadores e outras organizações envolvidas e visitando a África, para que eu veja o que precisa ser feito e onde nossa energia pode ser melhor aproveitada.




HM - Quanto ao seu trabalho no estúdio. Você é do tipo que começa a produzir com uma ideia fixa na cabeça ou apenas liga as máquinas e deixa as coisas acontecerem?

AD -
 Sou 100% do tipo que começa com uma ideia fixa. Acho que ligar as máquinas e ver o que acontece é mais para produtores obcecados com racks modulares ou produtores muito novos. Para mim, foi uma fase rápida que tive que passar para aprender como usar as ferramentas e criar a ideia que eu tinha. Foi um período muito frustrante, tentando produzir sem o conhecimento técnico, era quase uma tortura para conseguir tirar a ideia. Eu odiava isso. Durante esse tempo, houve uma séria falta de autoconfiança e perguntas sobre quando eu seria bom, mas eu não desisti, graças a Deus. Tenho melodias e ideias abstratas que eu preciso escrever. Ligar as máquinas e brincar é divertido, mas é o mundo de um programador.




HM - Para finalizar, uma pergunta pessoal. Qual é sua grande objetivo de vida enquanto músico?

AD -
 É muito simples, na verdade. Meu objetivo é nunca chegar a um ponto em que eu sinta que fiz tudo o que há para fazer com a música. Quero permanecer interessado e sentir essa sensação de admiração sobre o que posso criar.


 


 


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