Etapp Kyle: a sofisticação do techno em um bate papo exclusivo sobre Brasil, Berlim, carreira - 14/11/2017


Por: Gabriela Loschi
* com colaboração de Chico Cornejo

Foto de abertura: Image Dealers


 


Há menos de quatro anos Etapp Kyle lançou as primeiras faixas pelo respeitado label alemão Klockworks, e desde então suas habilidades distintas foram capturadas pela cena techno mundial. O talento inerente deste produtor ucraniano, que consegue combinar as mais sofisticadas batidas na pista de dança com melodias suaves e profundas que nos carregam para atmosferas quase intergalácticas, chamou a atenção de artistas como Richie Hawtin, Ben Klock, Steffi. E foi a maturidade artística de suas produções que o transformaram em uma das figuras mais emocionantes de uma cena nem sempre tão impressionante.

Residente do Berghain, artista do supremo label berlinense Ostgut Ton, e viajando o mundo através da sua produção, Sergii Kushnir, como foi batizado em seu país de origem, veio ao Brasil pela primeira vez ano passado, a convite dos produtores da Tantsa, uma das festas que encapsulou o conceito do techno em São Paulo de forma mais autêntica, entregando ao público uma experiência focada nas sensações originadas pela interceptação musical, visual e a qualidade das relações humanas. De acordo com ele mesmo: “Foi uma das melhores apresentações do ano”.


 



 


Hoje ele retorna não só para tocar, mas como parte do projeto, como curador, em uma relação que ainda promete muitos frutos e surpresas. Etapp Kyle fará um long set sem hora pra acabar ao lado de outra autoridade, o produtor Sterac, e artistas locais como Marcio Vermelho. Infos e ingressos para a Tantsa de hoje em São Paulo, aqui.

Mas como tudo isso começou? Como ele conseguiu atrair a atenção de artistas tão sólidos logo no início de sua carreira, e o quão profunda é agora sua relação com o Brasil? A profundidade pode ser percebida nesta entrevista, onde Etapp gentilmente nos recebeu em seu estúdio em Berlim para compartilhar abertamente todas essas questões. Confira:




HOUSE MAG – Olá Etapp, obrigada por nos receber em seu estúdio aqui em Berlim. É um prazer. Há muita expectativa em torno da sua música, mas por ser um artista relativamente novo, pouco sabemos sobre a sua história. Então gostaria de começar falando um pouco sobre o início da sua carreira. Tendo nascido e sido criado na Ucrânia, onde a cena de techno não era exatamente a mais desenvolvida, como você entrou em contato com a música eletrônica pela primeira vez?

ETAPP KYLE – Olá, o prazer é todo meu. Bom, eu tinha uns quinze anos e fui a um club com um amigo. Eu tocava piano, tinha bandas, era músico, mas a discotecagem era completamente nova prra mim. Fiquei energizado, não entendia como as coisas funcionavam tecnicamente, imaginava que o DJ se limitava ao scratching. Comecei a observar. Era house music, tipo o que se ouve em rádio. Fiquei curiosíssimo no fato de ele conseguir juntar tracks de estilos e BPMs diferentes... como funciona a mixagem? As transições me fascinaram. Eu sequer tinha noção do que era beatmatching e de como o controle de pitch funcionava num toca-discos. No dia seguinte pesquisei tudo a respeito, fui atrás de um programa para emular equipamento, já que não era acessível pra mim. Os primeiros anos se resumiram a encontrar os recursos certos e aprender a manipulá-los, daí comecei a praticar.


 


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Foto by Sven Marquardt




HM - Quais foram os primeiros artistas que te interessaram nessa jornada de aprendizados?

EK – Eu apenas me recordo que era numa pegada meio Ibiza, pois era o que de mais fácil acesso havia pra mim. Eu saí de um vilarejo na Ucrânia e estava sendo exposto pela primeira vez àqueles sons estrangeiros. Eu mal tinha internet naquela época. Mas não era música ruim, naquele tempo o tipo de House praiano das baleares não implicava numa sonoridade pobre, era até muito boa. Os nomes de que me recordo são Junior Jack e Martin Solveig, que fez coisas muito legais então. 


 


HM – Sendo de um vilarejo pequeno, como era o seu contexto familiar? Seus pais te apoiaram quando decidiu se tornar um DJ?

EK - Eles não sabiam, pra falar a verdade. Isso foi bem no momento em que minha mãe saiu da Ucrânia, pois a situação econômica era extremamente desfavorável, minha família enfrentava dificuldades. Depois meu pai  também partiu. Então, basicamente éramos eu e minha avó, que sempre me apoiou em tudo que fiz.


 


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Foto: Image Dealers / Tantsa 2016




HM – E foi difícil começar a tocar?

EK – Isso foi há uns 11 anos, e não existia uma cena eletrônica na Ucrânia, era muito difícil desenvolver algo, mesmo assim passei a tocar em vários clubs. Cheguei a cogitar outra carreira, cursei física na Universidade, e eu até curtia, mas a música passou a dominar, mesmo assim cursei até o fim.




HM - E quando você se tornou de fato um produtor?

EK - Para ser totalmente honesto, eu comecei a produzir quando perdi a fé na cena ucraniana, na minha cidade. Eu tentava criar algo novo quando promovia minhas festas. Mas em meio a toda a crise que ocorreu pelo mundo em 2008, as pessoas começaram a sair menos. Tudo meio que perdeu o sentido, eu estava perdido, não sabia mais aonde poderia tocar e continuava perdendo um dinheiro que eu já não tinha com eventos. Não conseguia mais bancar essa aventura e decidi parar para me dedicar mais à música. Eu realmente fui com a ideia de que a produção iria me ajudar a conseguir gigs, ao menos no meu país. Mas foi uma besteira, já que não havia uma cena de Techno efetiva ali naqueles tempos.


 


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Foto by Sven Marquardt




HM – Você já começou produzindo Techno?

EK - Não o tipo de Techno que toco atualmente, era algo mais próximo da CLR do Chris Liebing, algo um pouco mais pesado, mais masculino num certo sentido, mais rápido. Mas logo encontrei o que me definiria musicalmente, me dediquei por um ano a conhecer, desvendar os segredos dos estilos, quais selos estavam no cenário e chegar ao meu gosto. Então a transição ocorreu porque eu queria ter mais movimento em minha carreira, mas acabei encontrando minha forma de expressão predileta. Quando você começa, não tem volta, assim que comecei a tocar e depois a fazer música, foi um caminho sem volta.




HM – Foi aí que surgiu o convite pra tocar no ARMA17, em Moscou?

EK – Foi aí que tive o apoio desse fabuloso clube em Moscou. Um amigo enviou meu set e eles me convidaram para tocar, quando eu sequer tinha uma alcunha. Tinha outras, de outros projetos, de quando eu tocava o que me pediam, mas quando me convidaram para tocar no ARMA, tive de inventar um nome. E rápido, pois eles precisavam divulgar as atrações e o flyer. Foi aí que surgi com Etapp Kyle.




HM - Tem algo de ucraniano nesse nome?

EK - Nadinha. Eu só misturei umas letras para o primeiro nome e Kyle é um nome até comum pelo mundo. Depois eu comecei a questionar se eu realmente curtia, mas aí toda uma reputação já havia sido construída, discos lançados, a conexão com a Klockworks estabelecida… e era tarde demais para mudar. E passei a gostar. 




HM - E como você conheceu o Ben Klock?

EK - Tudo foi entremeado por conexões comuns que se deram através dos promoters russos para quem ele iria tocar numa festa, fora do Arma 17. Eles não me apresentaram a ele, mas o convidaram para tocar num evento, onde no fim quem tocou foi o Marcel Dettmann. Meus amigos me pressionaram para mandar meus trabalhos e gravaram um CD com faixas minhas.




HM - E estas eram suas primeiras produções?

EK - Sim, eram fruto de algumas das minhas primeiras incursões o estúdio. Algumas já tinham sido lançadas localmente, num selo ucraniano, estritamente digital. Tudo aquilo era fruto do trabalho de um iniciante e talvez eu nem devesse ter lançado aquilo.




HM - Qual era o selo?

EK - Era um selo até legal, com alguns músicos e produtores internacionais, chamado Inteks e o primeiro EP foi o Inception. Algumas pessoas ainda tocam aquelas músicas, mas eu acho que poderia ter amadurecido mais meu som antes de ter posto isso no mercado, não que fossem músicas ruins, mas hoje eu prezo mais a qualidade do que lanço. Mesmo assim, sou grato por terem me dado essa chance naquele momento tão inicial do meu trajeto e as músicas ao menos agradaram. Meus amigos entregaram os CDs para Ben Klock, Steffi, Richie Hawtin, e uma semana depois eu recebi mensagem de todos eles, eles todos queriam mais música.


 



 


HM – Todos eles queriam lançar suas músicas? As mesmas músicas? E aí, o que você fez?

EK – Sim. A Steffi gostou muito, falou pra eu continuar enviando. Ben imediatamente queria ouvir mais. Eu não falava uma palavra em inglês. Meu booker me ajudava. Richie Hawtin pediu a ele meu email pessoal e disse que queria lançar uma das minhas tracks na Minus. Mas aí o Richie estava viajando muito, e desapareceu. Foi quando Ben (Klock) me perguntou: “o que eu faço? Quero lançar”. Mas eu havia confirmado com a Minus. O Ben insistiu, que a track não faz sentido sozinha, que ele queria lançar como EP completo, todas juntas. E na verdade a Minus não era exatamente o meu estilo, meu som, Richei sempre foi um exemplo, todo o seu background, Detroit, sua história, eu fiquei numa sinuca de bico: “como que eu falo não para um artista como o Richie Rawtin?”. Aí eu escrevi um email, com milhões de desculpas, mas que eu queria lançar na Klockworks, que seria full EP, que era mais interessante pra mim como primeiro release. Richie super entendeu, disse “ok man”, mas disse também que estava desapontado pois havia fechado muitos sets daquela temporada com aquela track.




HM – Qual era essa track?

EK - A track era Drama. Mas ele compreendeu. Saiu no EP Klockworks 10. E mesmo assim depois ele me escreveu de volta, dizendo que queria lançar alguma coisa de qualquer jeito, pedindo mais músicas. Mandei pra ele outra track, a “Yuma”,  ele achou muito boa, e colocou na compilação da Minus. Pouco tempo depois eu já estava tocando em Ibiza com o Richie e no Berghain com o Ben. 


 



 




HM – Imagino que aí a decisão de mudar definitivamente pra Berlim veio naturalmente...

EK - Eu morava no lado oeste da Ucrânia, longe, quatro horas de viagem de trem de Kiev. Logo que comecei a ter um pouco mais de independência financeira, me mudei para Kiev, onde permaneci por uns dez meses, mas nessa época também comecei a receber convites para me juntar a uma agência e lançar minhas produções por selos alemães e isso tornou possível minha residência na Alemanha legalmente. Mudei-me em março de 2015 para Berlim e tudo começou a engrenar depois disso, pude perseguir minhas ambições com mais afinco. Logo depois fiz parte da compilação Ostgut 10. Isso tudo rolou em menos de um ano. Pouco depois de lançaram meu Undertone EP pelo sub-selo deles dedicado a projetar novos talentos.




HM - Você comentou que a Ostgut Ton foi responsável por moldar muito do que você começou a entender como Techno no decorrer do seu aprendizado. Como é essa experiência de agora fazer parte dos artistas que ele lança?

EK - Para ser sincero, demorou para que pudesse acreditar nisso, já que sempre tive a gravadora na mais elevada estima. Eu nem consigo encontrar uma palavra para definir o quão importante ela é para mim, a qualidade que ela representa, a sonoridade. Minha introdução ao que é tido como Techno "underground", `inteligente" foi através da Ostgut, e principalmente pelos mixes e produções do Ben, que sempre foram espetaculares. Lançar pela Ostgut me da energia e inspiração pra criar mais, em melhor qualidade e crescer.


 



 


HM - E como você encontra um equilíbrio entre a cabine e o estúdio? Como você mantém sua vitalidade criativa e não deixa esses dois mundos colidirem?

EK - Para criar música eu tenho fontes diversas de inspiração, tipo levar um estilo de vida saudável, ficar em contato com a natureza, às vezes também ouvir música que não seja eletrônica, absorver experiências de vida… Mas de fato há um conflito e este ano eu tirei um tempo para ficar em casa, produzindo. Algumas pessoas conseguem fazer no avião, eu não sou uma delas. O máximo que consigo é escolher músicas, selecionar e preparar meu set. Prefiro estar num ambiente mais contemplativo, com a iluminação adequada. Tem gente que consegue até finalizar faixas durante um voo, eu não tenho a menor ideia de como fazer algo assim. Quer dizer, eu sei como, mas não consigo, falta a sala, a circulação do som, os monitores adequados… Acho que acaba soando estranho, desprovido do brilho que esses recursos trazem ao processo, eu não conseguiria mixar algo em fones de ouvido.


 


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Foto: Etapp Kyle Studio in Berlin - Credits: Etapp Kyle




HM - Agora falemos da sua relação com o Brasil. Sua primeira vez foi ano passado na Tantsa, certo?

EK - Isso. Eu não tinha a menor ideia de como era a cena brasileira. Conheci o Madu em Berlim e ele também foi me ver tocar na Holanda. Ele se apresentou como um promoter de festas de Techno de São Paulo e me convidou para tocar. Eu não sabia o que esperar. Eu raramente crio expectativas sobre eventos em que tocarei, já que isso afeta minha capacidade de curti-los. Cheguei no local e fiquei pasmo, mal podia acreditar naquele cenário, um prédio em ruínas e o ambiente estava elétrico. O som estava fabuloso, um monte de gente linda dançando e curtindo. Foi uma das melhores festas em que toquei ano passado, tanto que toquei muita coisa que usualmente não consigo tocar, abri o leque musical, o que é algo especial que faço quando fecho o Berghain, talvez, porque exige um conjunção de momento, lugar e público especiais. Os caras da Tantsa conseguiram me deixar à vontade para que eu pudesse arriscar a esse ponto, sendo que tocava pela primeira vez no país. Foi muito especial.




HM - E agora você está voltando e com uma residência já estabelecida.

EK - Sim, isso surgiu de conversas no backstage, após esse set, eles perguntaram se eu queria retornar e sugeriram que eu me envolvesse com a noite de forma mais ampla e direta, criando a escalação artística e tudo mais. Foi daí que eu sugeri o Sterac para compor a noite comigo, já que ele também está na Klockworks agora. Além disso eles me enviaram o material de DJs locais e eu selecionei quem iria abrir a noite, sendo que eu vou encerrar.




HM - Você curtiu as coisas dos artistas nacionais que você ouviu?

EK - Sim, me mandaram alguns nomes e eu ouvi coisas muito boas. Eu tinha de escolher um. Levei bem a sério essa tarefa e ouvi tudo com muito cuidado porque essa posição de abrir uma noite para mim é crucial, é uma responsabilidade enorme, criar uma progressão coerente.


 


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Foto: Image Dealers / Tantsa 2016




HM – Essa próxima Tantsa no dia 14 de novembro será uma noite especial para você.

EK - Estou muito animado de voltar ao Brasil e à Tantsa, temos uma relação que se tornou amizade, e tenho muitos planos para o próximo ano. Além de residente e curador, quero fazer levar experiência musical a outro nível, mais do que só uma festa, e isso irá acontecer no próximo ano.


 


HM - Como seria mais ou menos esse conceito? 

EK - Vou dar um exemplo do que aconteceu comigo recentemente. Eu tive uma gig em Paris que foi horrorosa, sem energia na pista, e estava quase em depressão por conta disso. No dia seguinte teria uma gig em outro país, e quando cheguei lá, o promoter estava tocando um tech house, vamos dizer, “cheesy”. O local não era acostumado a ter noites de techno, mas ele quis me bookar pois curtiu meu som. Mesmo assim fiquei com medo do que poderia acontecer, pois eu não aguentaria mais uma noite ruim na sequência. Mas quando eu comecei, tudo mudou, as luzes mudaram um pouco e foi tão bom, foi uma noite maravilhosa. Mas principalmente porque tinha uma menina dançando em frente à cabine e havia uma energia muito poderosa saindo dela. No dia seguinte eu postei uma mensagem no evento, agradecendo a noite e também a essa “estranha” que com sua dança e energia transformou a noite. Ela viu e me respondeu. Ela disse que ela não saía há uns 4 anos, que não estava bem, cheia de problemas, e que essa deu um CLICK e tudo mudou pra ela através da minha musica, que ela se sentiu muito bem e que ela agora é outra pessoa. E eu senti isso também, fiquei muito inspirado após esse episódio. Isso é o que eu chamo de a mágica acontecer, por causa da música, da energia, da conexão. É isso o que eu quero desenvolver mais. Claro que isso não acontece sempre, se não não seria algo especial. Mas quero achar um caminho de fazer a música funcionar diretamente, de pode tocar realmente profundamente as pessoas. Mas para isso, a cabine do DJ precisa estar na posição correta (próxima ao público para que você consiga se conectar com a festa), e muitos elementos precisam estar em sintonia. Tem que ser todas as peças: música, pessoas, conexões, DJ, soundsystem, não é só uma coisa.


Por isso eu quero tanto voltar ao Brasil. Eles estão abertos a experimentar, se preocupam com a qualidade, em criar uma coisa única, e a cena está crescendo muito no Brasil, tem muita coisa acontecendo.


 


HM – Obrigada Etapp. O Brasil está ansioso para recebê-lo novamente. 


 


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Foto: Image Dealers / Tantsa 2016