Nonchalant: O adjetivo que define a cena de Paris - 09/01/2018

POR Georgia Kirilov
FOTO Rémy Golinelli


Nonchalant: alguém ou algo que aparenta ser casual, relaxado, sem grandes esforços. Em Paris tudo se encaixa e a estética impressiona, porém reserva poucas surpresas — a não ser que a decisão seja se aventurar no banlieue [subúrbio]. O que gera um impacto na área central é a variedade de opções culturais que existem diariamente para consumo das mais diversas tribos. Nonchalant se torna então o adjetivo para definir a cena clubber da cidade, pois a intensidade das ações proporcionadas é mais controlada e precisa, ao mesmo tempo que também é irreverente.


Tal proposta está alinhada com o estilo de vida dos parisienses, em conjunto a uma multiplicidade de espaços disponíveis. A maioria dos turistas frequenta os clubs da Champs Elysées, como o VIP, a L’Arc e a Titty Twister, onde poucas destas características podem ser vistas, afinal trata-se de um mercado globalizado — até porque existem propostas praticamente iguais em todas as grandes capitais do mundo. Se a vontade é uma experiência um pouco mais extravagante, a pedida é ficar de olho quando rolam festas abertas no Club Silencio, ou fazer amizade com um membro do estabelecimento desejado para conseguir entrar.

Agora, quando se trata de techno, house e as diversas nuances que permeiam ambos estilos, a área do Quai de Seine oferece algumas opções: Concrete, Garage, Nuits Fauves e Comunion são algumas. Concrete tem O adjetivo que define a cena de Paris um dos melhores soundsystems de Paris e o Garage traz artistas mega atuais e interessantes como Red Axes. Além dessas, vale checar o REX Club, o Faust, La Machine du Moulin Rouge e À La Folie. Apesar da variedade, um pecado capital da cena de Paris é a fraqueza da cena queer, pois são poucas as festas que promovem um ambiente pró-LGBTQ abertamente — o que não quer dizer que se trate de lugares homofóbicos, somente não é uma ideologia clara — e contam com a presença de drags ou um público “montado”, como se vê em determinados eventos em São Paulo e Berlim, por exemplo.


No entanto, alguns lugares se destacam dos seus contemporâneos com propostas mais relevantes. L’Aérosol é um encontro para interação urbana que promove desde exposições de arte até oferecer espaço para coletivos como o Barbi(e)turix, que age em diversas frentes na disseminação da cultura feminina e queer — uma delas sendo festas com algumas das produtoras francesas e internacionais mais interessantes do momento. YoYo faz parte do Palais de Tokyo, museu de arte contemporânea que fica perto da Torre Eiffel, com festas de produções excelentes dentro do prédio imponente. La Gaîté Lyrique é também um dos espaços mais incríveis da cidade que funciona como um ambiente multidisciplinar e didático nos âmbitos artísticos, de intervenção social e questionamento de identidade de gênero. Eventos que estão para acontecer lá em breve são um DJ set do Franz Ferdinand e uma noite curada pelo Carl Craig.


Na procura por diversidade todos os caminhos levam ao banlieue, em ações como a promovida pela Red Bull Music Academy durante o RBMA Fest Paris deste ano, em que cinco espaços em Montreuil — um dos subúrbios da cidade — estavam abertos com eventos múltiplos acontecendo, nos quais podia-se transitar livremente. É por lá também que acontecem raves em fortes abandonados ou outros espaços mais afastados como galpões ou fábricas. Afinal, toda cidade tem suas noites mágicas e momentos inesquecíveis, somente é mais difícil de encontrá-los em alguns lugares do que em outros (dica: uma fonte para ajudar na pesquisa é a revista francesa Trax Magazine e o site Resident Advisor).


É possível dizer, então, que é o tipo de cidade que não se pode deixar de visitar, e não por ter uma das melhores cenas noturnas do mundo, mas porque oferece um pacote completo de opções. Se a procura for para um lado underground, talvez a capital francesa não seja o melhor destino, afinal o underground é muita coisa, menos nonchalant. Porém, se a vontade é respirar cultura e interagir com um público maduro que leva entretenimento a sério, Paris será sem dúvida a escolha certa.