Rude: Arte nas Veias - 09/01/2018

Por Irena de Almeida
Foto Diego Jarschel


rude_auto_500


Ele não fotografa desde os seis anos de idade, não brincou com a câmera analógica do pai quando adolescente, nem sonhou em se tornar o fotógrafo reconhecido no mercado de música eletrônica, como é hoje. Filho de uma artista plástica e de um empresário, seu dom para os cliques surgiu como suas outras aptidões: de forma orgânica, natural e muito intensa. Aliás, esta é a palavra que melhor o define: “intenso”. Quem vê Rude trabalhando com alguns dos maiores nomes da cena, pelos principais palcos do Brasil, sabe muito bem.


Sem nenhuma cerimônia, ele sobe na mesa do DJ e dispara sua câmera enquanto canta, grita e dança, empolgando a galera da frente para a imagem perfeita ser registrada no drop do DJ. É um espetáculo à parte, até porque o palco é um velho conhecido seu e não há lugar onde ele sinta mais à vontade. Rude é multiartista: músico, cantor, ator, fotógrafo e videomaker. Uma ameaça quíntupla, não tripla, como costumam dizer no teatro.


Já são 12 anos de dedicação exclusiva à arte, num processo de descobertas “que ainda não terminou”, ele garante. Rude já teve banda de rock, com direito a clipe no Top 10 MTV, turnê e música autoral tocando nas rádios, já fez teatro sob a direção de Wolf Maya, também fez cinema — incluindo um curta-metragem da francesa Magali Magistry, selecionado para o Festival de Sundance. Isso tudo entre 2005 e 2011, quando saiu da cidade onde viveu boa parte da vida, Blumenau/SC, para se dedicar à carreira artística no Rio de Janeiro. “Me expressar de várias formas significa a liberdade de ser quem quiser, na hora que eu quiser. Liberdade é essencial para criar e isso acaba me levando para várias direções”, diz.


rude_by_diego_jarschel__500 


COMO NUM PASSE DE MÁGICA


Em 2012, Rude viu um de seus velhos hobbies se tornar uma nova possibilidade de carreira. A fotografia, até então, era uma brincadeira de fim de semana com os amigos músicos e atores, que até gerava alguns cachês. Mas de uma hora para outra “e como num passe de mágica”, como ele mesmo define, trouxe uma oportunidade imperdível e o primeiro trabalho profissional atrás das câmeras: Rude acompanhou a Banda Chaparrall, de Minas Gerais, durante uma viagem de um mês às cidades de Nashville e Memphis, nos Estados Unidos. Ele foi o responsável pelo making off, pelas fotos e também participou da gravação do DVD da banda.


Começou a estudar e aprimorar suas técnicas de fotografia, devorou publicações sobre o assunto e aprendeu muito do que sabe de forma autodidata. Isso abriu um mundo de possibilidades e ele começou a trabalhar, de fato, como fotógrafo e diretor de fotografia em diversos videoclipes e curtas-metragens, alguns com a atriz e diretora Thaís de Campos.


E como era de se esperar, o rock e o teatro o presentearam com seus principais trabalhos em terras cariocas: a gravação do DVD de Lulu Santos na Fundição Progresso; o show de Erasmo Carlos na Cidade das Artes; o show de Rob Zombie no Rock in Rio 2013; a peça “Entredentes”, com direção de Gerald Thomas e Ney Latorraca no elenco; e o DVD “50 anos de Mattar”, de Maurício Mattar, no qual Rude dirigiu diversos artistas como Caetano Veloso, Djavan, Zeca Pagodinho, Toquinho e outros nomes consagrados da MPB, ao lado do diretor Roberto Talma. “Esse período foi a construção de quem sou hoje. Através dessas conexões, sob olhar desses nomes geniais da arte brasileira, aprendi a expressar o que tenho dentro de mim. Foi a maior escola que poderia ter.”


rude11_500


Foto: Rude 


RUDE É ROCK. E VIROU ELETRÔNICO!


O retorno a Santa Catarina, em 2015, guardava uma virada total em sua vida. Ele saiu de casa cantor e guitarrista, em 2005, e voltou trabalhando com fotografia e cinema. Mas agora, a Meca da música eletrônica brasileira seria o habitat perfeito para o roqueiro de mão cheia. Seu olhar acostumado com os palcos e sets contribuíram muito para que os trabalhos de estúdio fossem sua porta de entrada na cena. Hoje, o estúdio é o “filet mignon” do seu cardápio.


“É o que mais amo fazer. Enxergar quem é o artista, me aprofundar na sua essência pra fazer ele brilhar nas fotos. A direção que acontece no estúdio, o tipo de luz e ambiente que gosto de criar, que vem muito da linguagem do cinema brasileiro, são os elementos que concebem o meu trabalho.”


Além do estúdio, Rude tem os maiores festivais do país no currículo — Winter Music Festival pela House Mag, Tomorrowland, Tribe, TribalTech, Ultra Music Festival, Kaballah, Só Track Boa, XXXPerience —, e coberturas para grandes clubs, em destaque o Green Valley. Em junho de 2016 foi convidado a integrar o time do Image Dealers, um dos mais importantes coletivos de  fotógrafos do mercado eletrônico nacional. Trabalhou com diversos artistas brasucas como Gabriel Boni, Rodrigo Vieira, Alex Stein, Malik Mustache, Öwnboss, FELGUK e Devochka. Fez parte da equipe de Gustavo Mota durante mais de um ano, cobrindo alguns dos maiores feitos do DJ e produtor, incluindo a turnê internacional no Vietnã. E também trabalhou com o alemão Sharam Jey, o francês Watermät, o belga Kolombo e a DJ, produtora e cantora dinamarquesa Ashibah, que se tornou uma amiga e parceira de produção musical.


 rude_by_diego_jarschel_2_500


TREVAS DO MEU CORAÇÃO


“Mesmo antes da minha residência, já me sentia em casa no El Fortin. Eu entro num projeto de cabeça, me entrego de verdade e toda a equipe é nessa mesma sintonia: todo mundo ali ama o “trevas” e por isso é tão mágico. Então, não poderia ser de outro jeito... Digamos que a gente ‘se reconheceu’, a gente tinha que estar junto”, diz, tentando colocar em palavras uma relação elétrica desde o primeiro dia.


O contrato como fotógrafo, videomaker e diretor de fotografia do El Fortin, em Porto Belo/SC, veio como uma espécie de coroação do trabalho dos últimos dois anos e meio. E sua noite de estreia foi com o long set histórico de Vintage Culture, em 6 de maio de 2017. Desde então, Rude é responsável por imagens icônicas do club, e isso lhe garantiu a residência de outra casa do mesmo grupo, o Hakkô, também em Porto Belo, o mais novo sunset club de Santa Catarina.


“Eu não sei viver sem estar apaixonado, sem acreditar piamente nos meus sonhos. E é isso que espero das pessoas que trabalham comigo e dos projetos em que me envolvo. Tem que ser de verdade, jow.”