E o circo vem aí: um fascinante passeio pelos temas do Tomorrowland


Por: Lucas Arnaud

A pequena cidade de Boom, quase que perdida no interior da Bélgica, já se tornou um lugar muito especial para os fãs de música eletrônica de todo o mundo. Nada mais justo: é lá, a apenas 32 quilômetros de Bruxelas, que ocorre um evento que se tornou reconhecido por sua excelência, principalmente em se falando de produção e de atrações. E não é nenhum segredo que me refiro ao grande Tomorrowland, festival que ajudou a elevar o nível das festas a um novo patamar: palcos colossais, cenografia exuberante e ambientes inclusivos, apenas para citar alguns dos elementos que tornam únicos os momentos vividos no festival.

Nesse contexto, uma das sacadas mais geniais dos produtores da festa foi a abordagem ao palco principal, ou mainstage (termo que, inclusive, foi popularizado no Brasil pelo Tomorrowland). Explico: todo ano, a festa recebe uma temática, que é anunciada alguns meses antes da festa. A “malícia” reside justamente no fato de esse anúncio apenas SUGERIR o que espera os fãs que irão ao festival, de forma a manter toda uma aura misteriosa quanto ao design do palco principal. E todo ano é assim: a galera chega ao Tomorrowland ansiosíssima para pisar lá e ver, com seus próprios olhos, o formato do palco que se reiventa a cada ano.

Mas será que foi sempre assim?
 

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FOTO: Patrick Verstegen – Photo-united.com

 

A foto acima é da primeira edição do festival, em 2005. Fica claro como as proporções eram menores – havia menos gente (10 mil pessoas ao todo!) e o palco era bem mais simples (apesar de que ainda assim era bem superior aos padrões da época). Vale lembrar que o festival tinha apenas um único dia de duração! Nomes como Armin Van Buuren e Ferry Corsten foram headliners dessa edição, numa época na qual o trance estava em alta.
 

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O festival apresentou considerável crescimento de 2005 para 2006, mas o curioso é que o palco acima (o da edição 2006) parece ter caído no esquecimento (aparentemente é um dos palcos menos conhecidos pelos fãs do festival, dada a pequena quantidade de material como fotos e videos na internet, se comparado com outros palcos).  A edição de 2006 teve como destaque um line up que contava agora com DJs headliners de estilos como o house e o progressive house. Entravam para o time das atrações, portanto, Axwell e David Guetta (parêntese: é galera, realmente tio Guetta mentiu pra a gente quando afirmou que tocou em TODAS as edições do festival – na verdade ele esteve presente “apenas” a partir de 2006!).

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O palco de 2007 é para mim o mais simplório, pelo menos durante o dia. Apesar de haver alguns upgrades (como os LEDs no centro e nas pontas), o resto do palco não trazia muitos detalhes, apresentando basicamente uma única cor e um formato quase retangular. Nessa edição, o destaque é que finalmente o festival começou a ter dois dias de duração. E aí chegamos em 2008:

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Muitos não sabem, mas 2008 foi um grande marco na história do festival. Foi a primeira vez que mais de 100 DJs tocaram e (não por coincidência), foi a edição mais bem sucedida até então. O número de participantes ultrapassou 35 mil, havendo fontes que falam até em 50 mil fãs durante todos os dias no festival. Ficou claro, também, que a equipe se esforçou para dar um ar mais “conto de fadas” à temática do festival. Mas dá uma olhada nisso:

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O palco de 2009, que você pode ver acima, seria um ótimo palco mesmo considerando os padrões de hoje! Podemos ver a melhora no acabamento dos elementos que compõem o stage. E outro fator também chama a atenção: o festival ja atraia muuuuito mais pessoas!

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Basicamente, os números dobraram: mais de duzentos DJs se apresentaram para um público de 90 mil pessoas. Nomes que estouravam na cena estavam nesse line, como Martin Solveig, Yves V (que viria a se tornar um dos residentes do festival) e Dada Life. Já o palco a seguir você provavelmente já deve ter visto:

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A edição 2010 (mainstage na foto acima!) caracterizou o início do “Tomorrowland” como nós conhecemos. Vários elementos e características da cenografia do mainstage dessa edição são utilizados inclusives até HOJE. Por exemplo: os portões que dividem o Dreamville da área do festival tem hoje exatamente o mesmo formato e cor desse palco, com o característico arco-íris por cima. 

O palco do aquecimento do festival, o “The Gathering”, também é baseado na temática desse mainstage, com um sol em destaque (característica que continuou inclusive após o redesign que o palco “The Gathering” ganhou, em 2015). A própria figura do rosto no sol também permanece presente nos detalhes da cenografia das edições atuais do festival. Aí estão os portões que se fazem presentes até hoje nas edições atuais:  

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E não são apenas elementos cenográficos que surgiram nessa edição e que permanecem até hoje: eis que Dimitri Vegas & Like Mike (que se tornariam DJs residentes do festival e #1 do mundo no rank 2015 da DJ MAG) assumem o mainstage pela primeira vez. Outro ponto alto foi a apresentação do icônico Swedish House Mafia, cujo vídeo-relíquia a própria página do festival postou:
 

A edição de 2011, que foi a primeira a durar três dias, já é capaz de gerar maior identificação nos atuais fãs da música eletrônica mainstream:

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O termo “EDM” já se tornava popular, e com ele veio a massificação de diversos estilos, como o progressive house, o eletro house e o bigroom. Um momento memorável dessa edição foi o set de Avicii no mainstage! Tiesto também entrou para o time de headliners do Tomorrowland. Notemos algo interessantísmo: o tema do palco era uma árvore – e, segundo os organizadores, essa árvore seria uma homenagem à cidade de Boom. Não foi a última vez, portanto, que Boom foi homenageada com esse símbolo no palco principal. Em 2016, o palco Elixir of Life trazia mais uma vez uma árvore como mainstage. Você deve até estar se perguntando: mas o que tem a ver árvores com a cidade de Boom? Simples: a árvore é um de seus simbolos, figurando inclusive em sua bandeira! Eis o brasão de Boom:

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O ano de 2012 foi outro marco para a história do festival e trouxe o que, para mim, seria o mainstage mais icônico e mais característico, em se falando do Tomorrowland. Com o tema “The Book of Wisdom” ou –  “O Livro Da Sabedoria”:

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Esse palco fascinou milhares de fãs de música eletrônica, o que foi potencializado por uma obra-prima chamada aftermovie. Nesse vídeo, podemos ver o festival em seu total esplendor ao som de uma seleção de tracks feitas por Dimitri Vegas & Like Mike.
 

Pode-se dizer que nessa época o festival já era considerado, de longe, um dos melhores (se não o melhor) festivais mainstream do mundo. Mais de 400 DJs tocaram para mais de 75 mil pessoas de 75 países diferentes. No line: Afrojack, Above & Beyond, Carl Cox, Ferry Corsten, Sander van Doorn, Swedish House Mafia, Avicii, Fatboy Slim, Hardwell, Nicky Romero, Laidback Luke, David Guetta, Steve Aoki, Knife Party, LMFAO, Skrillex – apenas para citar alguns dos protagonistas de uma edição que ficou para a história. Esse palco mora também no coração dos fãs brasileiros, visto que foi o palco do Tomorrowland Brasil 2015, a primeira edição do festival aqui no país.

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O palco da edição 2013 trouxe a temática “The Arising Of Life” (O Surgimento da Vida), e por sinal tornou-se um palco estilo “ame-o ou deixe-o”. As opiniões acerca da cenografia do palco dessa edição são divídidas, havendo quem diga que o palco estava bonito e até mais esplendoroso que na edição passada – há quem diga que na verdade o palco parecia mais um amontoado de caixas de papelão (rs). O fato é que o palco foi realmente descartado das edições internacionais do Tomorrowland (o Tomorrowland Brasil e o Tomorroworld), tendo se limitado à edição belga do festival. Foram vendidos 190 mil ingressos, que foram esgotados em cerca de 35 minutos! 

Em 2014, o festival fez seu aniversário de 10 anos, e eis o novo mainstage:

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A edição especial de aniversário contava com 2 finais de semana de evento, ou seja, 6 dias de festivais (8, se considerar os 2 “The Gathering”s). Com o tema “The Key To The Happiness”, o mainstage apresentava uma riqueza em seu acabamento nunca antes vista, com mais elementos que se movem, mais interação entre os dançarinos e o palco (eles rodavam engrenagens, pulavam em camas elásticas que existiam no prórprio palco, dentre outros). Cerca de 400 mil ingressos foram vendidos em, advinha, 5 minutos! E foi nesse Tomorrowland que David Guetta fez o anúncio do nosso querido Tomorrowland Brasil. 

E 2015 foi o auge em se falando de mainstages. Saca só:

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“The Kingdom of Melodia”, ou “O Reino De Melodia”, era o tema da edição de 2015 do festival. O palco tinha uma desvantagem, na minha opinião: ele era muito sem vida durante o dia. Nem parece com isso que figura na imagem acima.

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A falta de um LED (enquanto a “porta” não se abria) deixava o palco meio paradão e monótono sob a luz do sol. Isso contrastava com a noite, quando a infinidade de luzes coloridas iluminavam o palco e seus elementos, como jatos d´agua. Foi o palco mais minuncionsamente planejado, mais caro e mais complexo – segundo o pai do Tomorrowland Brasil, Luiz Eurico F. Klotz. Foi também o palco com coloração mais versátil, devido exatamente à complexidade em seu sistema de iluminação. Foi nessa época também que houve o lançamento do documentário longa metragem “This Was Tomorrow”, que mostrava um pouco da história do festival.

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A estratégia do palco de 2016 (a árvore do tema “Elixir of Life”) já foi inversa à de 2015. Explico: o palco era muito mais bonito durante o dia, e à noite ficava meio “apagado”, sem muitos detalhes. Mas claramente isso foi proposital: as previsões eram de dias mais longos, havendo vezes em que o por do sol ocorreu apenas às 21:30 da noite! Tendo em mente que a noite teria menor presença durante essa edição, o palco teve seu design focado na luz do dia, e é até por isso que vemos normalmente várias fotos desse palco de dia, enquanto que do Melodia (de 2015), vemos mais fotos à noite. Veja como é claro o prejuizo na cenografia desse palco durante a noite:

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O festival teve cerca de 180.000 visitantes, e inovou na escolha de DJs para o mainstage. Nomes como Galantis, KSHMR e The Chainsmokers surgem pela primeira vez no palco principal.

E aí, chegou! Tivemos a notícia de que, em 2017, o novo tema do Tomorrowland na Bélgica será “Amicorum Spetaculum” ou, “O espetáculo de amigos”. O festival promete, já que ocorrerá em 2 finais de semana (como a edição de 2014). Uma das possíveis explicações para isso seria o fato de não haver, nesse ano, nem Tomorrowworld e nem Tomorrowland Brasil, o que deixou um vácuo que estará sendo preenchido por MAIS Tomorrowland Bélgica. Eis o material que anunciou o tema: 

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Com uma rápida olhada, já fica claro que dessa vez o tema remete a características do imaginário circense. Sinceramente, uma cenografia que aborde circos, palhaços e mágicos (tendo até um toque vintage/antigo) tem tudo para ser um dos temas mais bem sucedidos de toda a história do festival. Será que o palco principal será um circo? A resposta certa para essa questão, só saberemos em alguns meses. E você, o que acha do novo tema?

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