Por: Gabriela Loschi e Breno Loschi
No dia 29 de maio de 2013, o Club 88 abriu as portas no salão do Jockey Club de Campinas, SP, primeiro patrimônio histórico da cidade e um dos imóveis mais belos do município. Com sua fachada deslumbrante e um interior irresistível, o prédio – tombado há quase um século – agora abriga há quatro anos o club que é uma das maiores referências de consistência e sucesso no país – tendo inclusive sido eleito o melhor club off circuit pelo prêmio RMC 2016.
O 88 encontrou uma fórmula que funciona: às sextas, suas consagradas festas de house e techno intercalam com sucesso noites de música mais “avançada” e “acessíveis”: “Dentro do público fiel que formamos, existem pessoas que buscam ambas as coisas, por isso, oferecemos um pouco de tudo, seguindo nossa visão artística. O segredo é o equilíbrio entre o que nos emociona – a música que acreditamos, especialmente nomes não tão conhecidos, que mal fecham a conta -, com artistas consagrados na região, que são bons para o club como negócio”, explica a sócia responsável pela curadoria Eli Iwasa.

Os sábados são dedicados à Wolf, noite de pop music que, conforme explica o sócio-proprietário Juka Pinsetta, “abraça a cena gay de Campinas e região, sem rótulos e preconceitos, valorizando o respeito à diversidade de gênero”. E em algumas quarta-feiras há o Groove Urbano, de hip hop e black music, “onde são valorizados elementos da cultura de rua, como grafite e intervenções urbanas”.
Mas se hoje o 88 alcançou tanto reconhecimento, sua história em uma das maiores cidades do país começou lá atrás, em 2003, num porão preto chamado Kraft. Peça chave no desenvolvimento da cena eletrônica do interior paulista, o icônico club – carinhosamente apelidado de inferninho – recebeu artistas ilustres como Marcel Dettmann, D-Nox, Chris Liebing, Richie Hawtin, Anthony Rother e DJ Marky, se transformou em tamanho, estética, proposta, mudou de lugar algumas vezes (já foi Heaven & Hell e Piano) para dar lugar ao Club 88, encontrando – e ajudando a construir – uma cena maior e mais madura. “Num passado não muito distante, as pessoas ouviam, aqui na região, sertanejo e pagode numa proporção muito maior do que hoje. O Kraft foi o precursor da música eletrônica mais conceitual na região de Campinas; trazíamos o que acontecia de melhor nas grandes metrópoles e fora do país. O público começava a consumir este tipo de música e a experiência que ela proporciona. A cada club que passamos esse objetivo foi se desenvolvendo. 14 anos após a inauguração do Kraft, sinto que somos um pouco responsáveis por nosso público consumir a música que tocamos com maior facilidade”, conta Juka.
Ao longo desses anos, não só o público da região pôde ter contato com grandes nomes do circuito internacional como a cena local se desenvolveu. “Uma das coisas mais legais em ter um club é apoiar e promover artistas que você acredita, e sentir que cresceram juntos. Um club não é feito somente de headliners, os novos talentos são fundamentais para a renovação da cena e para a longevidade de um club. Toda semana, buscamos dar espaço para novos DJs da região, além de nossos residentes”, afirma Eli.

Das fortes amizades entre os frequentadores e entre os sócios que permaneceram – e os que se mudaram – a história do Club 88 está longe de acabar. “Cada club cumpriu com seu ciclo de vida e nós mudamos conforme nossa visão, objetivos e desejos. O club que gostaríamos de ter há 10 anos não é o mesmo club que gostaríamos de ter quando resolvemos abrir o Club 88. Esta inquietude nos permitiu crescer, melhorar e progredir. E pode ter certeza, que tem muita coisa nova vindo por aí ainda”, entrega a japa.
E o Juka completa: “Trabalhamos para que o Club 88 fique aqui por mais muitos e muitos anos. Porém, nada impede que algo novo, como um outro clube, venha a somar e nos ajudar a trazer atrações muito maiores que o 88 não comportaria, não é mesmo? Quem sabe?! (Risos)”.
Vida longa à experiência que todos esses clubs nos proporcionaram e à cena do interior. O techno agradece!
