Spotify, Beatport, Bandcamp: Traffic Jam conta detalhes da sua pesquisa musical na quarentena

Por assessoria

Foto de abertura: Ebraim Martini

Além da técnica de mixagem, do conhecimento da cena, dos artistas e outros atributos que um DJ precisa possuir para realizar um bom trabalho, nenhum é tão importante quanto o repertório. Ter e saber qual é a música certa para tocar no timing é o que faz muitas vezes uma noite ser memorável para quem está na pista.

E se por um lado os DJs não estão podendo exercer sua profissão com a mesma liberdade de antes, por outro, têm a oportunidade de abastecer seu case com muito mais faixas e se  preparar para o retorno das festas.

Traffic Jam, reconhecido no Brasil por seus sets de warm up e parte do coletivo curitibano Radiola, atualmente, tem dedicado boa parte do seu dia para isso. Com passagens pelo Warung, Vibe, D-Edge, Beehive, Colours e Levels, até gigs internacionais por Amsterdam, Londres e Barcelona, ele sabe muito bem o quão importante é ter uma rica bagagem musical. Falamos com ele!

HM – Quando foi que surgiu o interesse pela pesquisa aprofundada, por descobrir novos sons, fora da sua “zona de conforto”? Antes ainda da discotecagem ou se acentuou depois que você fez disso uma profissão?

Foi antes da discotecagem, eu adorava (ainda gosto, claro) de ir atrás das músicas que eu ouvia nas festas, então acabava achando muitas outras coisas que não conhecia, era tudo bem hobby, sem pretensão, sem se prender a nada, isso me ajudou quando comecei a discotecar, pois já existia o hábito e a organização. Depois, como DJ, essa prática ficou mais técnica, planejo melhor, busco o que eu quero e também vou atrás de coisas que não sabia que queria, acho que aí é o “x” da questão.

HM – A gente tem visto o Bandcamp ganhando uma atenção maior nos últimos meses. Você  também tem sentido isso? Tem pesquisado mais por lá? Como você enxerga esse movimento?

Com certeza! Tenho visto o Bandcamp cada vez mais forte e tenho pesquisado mais por lá, ainda é pouco comparado aos meus outros meios, mas tenho dado cada vez mais atenção por diversos motivos. Primeiro porque os lançamentos ali saem mais rápido por não precisar passar por uma gravadora, que geralmente passa por um processo de uns seis meses ou mais. Além disso, muitas coisas lançadas estão disponíveis apenas por lá, o que é interessantíssimo para achar algo mais “exclusivo”.

Segundo porque nesse momento de crise, o Bandcamp deixa o artista com a maior parte do dinheiro da venda e isso é muito legal, algumas vezes rola umas ações que no dia 100% da venda é para o produtor. Então dou suporte total a essa plataforma.

HM – Aproveitando o assunto de plataformas de pesquisa, você recomenda algum outro lugar ou técnica para essa tarefa? É importante acompanhar o que está no top #100 do Beatport ou é melhor fugir de lá?

Então, a parte de pesquisa para um DJ é algo para ocorrer a toda momento, muitas vezes indiretamente, ouvindo um set, ouvindo um som com um amigo, Spotify, YouTube e assim você vai descobrindo novos sons, novos artistas, novas labels. Por sinal, recomendo muita essas duas últimas citadas, quando você começa a ouvir bastante o que gosta nelas, o algoritmo acaba gerando umas sugestões bem boas e também é bem fácil para você salvar e ir montando playlists pessoais (não necessariamente públicas) do que gosta.

Para mim funciona assim, estou sempre atento ouvindo, quando gosto anoto (ou tiro print) e então vou para o Beatport pesquisar e comprar, gosto muito de como a plataforma funciona, é muito fácil você entrar na página do artista e descobrir novos artistas através de collabs que ele fez, remixes e diversas gravadoras que lançou, isso vai abrindo o leque e também deixando você com 30 abas abertas no navegador (risos).

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Traffic Jam – Foto: Ebraim Martini

Essa questão do top #100 é complicado, ao mesmo tempo que muitas músicas estão lá por serem ótimas e venderem bem, eu tento ver os rankings do Beatport para ter uma ideia do que está bombando e de certa forma evitar, mas isso é a minha perspectiva. Como DJ profissional, quero levar sempre algo que fuja do óbvio, por mais que uma parte do público não vá saber se você está tocando as do top #100, eu gosto de evitar e sempre cavar mais fundo, assim creio que consigo algo mais original, com minha cara e não mais do mesmo.

HM – O momento de isolamento tem causado efeitos diferentes em cada um de nós. Alguns tem explorado uma linha de som mais experimental, testado novas combinações. Como tem sido pra você? 

Sim, com certeza é hora de testar novas combinações, afinal não temos uma pista para tocar, é hora de testar novos sons, novas ideias, novos gêneros, mas claro, nunca fugir do que você gosta. Eu, particularmente, estou adorando explorar uns deep house com bpms mais altos, 126 até 130, algo que não seria adequado de tocar no warm up e também não em peak-time (exceto em festas específicas). Nesse momento, tem muita gente consumindo seu som de casa, sejam sets, podcasts ou mesmo as lives, então, na minha concepção, está sendo legal explorar algo mais deep.

Tenho meu próprio podcast chamado Trafficast, que tendo explorar meu lado B, cada um teve um tema/estilo diferente, o último foi downtempo por volta de 100bpms, creio que o próximo farei com algo bem instrumental, para o pessoal poder ouvir de fundo enquanto está trabalhando de casa ou para relaxar e ser uma trilha sonora boa para isso.

HM – O que poderemos ouvir nos seus mixes ou mesmo na pista quando retornarmos as atividades normais?

Muita energia acumulada para ser gasta [risos]. Difícil fazer uma previsão, mas, com certeza, essa época será de renovação, em vários sentidos, então espero que minha música se renove e transmita a energia boa que todos merecemos após passarmos por esse período difícil. 

 

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