The Art of Clubbers apresenta Mamba Negra

Por Dadá Státhach

Foto de abertura: fgf0t

Em terrenos onde a ofidiofobia deve ser deixada de lado, serpentes longas e de pouca espessura – também com presas dianteiras afiadas que complementam uma cabeça em formato de caixão – rastejam nos chãos e paredes de ocupações artísticas na cena paulista desde 2013. O bote certeiro da Mamba Negra envenenou uma infinidade de pessoas que hoje unem propósitos singulares e plurais à música eletrônica.

A energia da festa vibra tencionando um rolê mais inclusivo – coloca em pauta intervenções a fim de reduzir danos relacionados a drogas, libera a catraca para corpes trans e drags que incluírem o nome em uma lista e faz um preço especial para quem cola de bike. O universo que mistura batidas brasileiras, house, acid techno e outras vertentes sintéticas abre espaços para diálogos sobre as urgências políticas em territórios nacionais e internacionais.

Brasil, Itália e Reino Unido, por exemplo, já foram preenchidos pelo arrepio coletivo criado nos eclosões policromadas. O grito da regência feminina ecoa do backstage através dos amplificadores e envolve o séquito numa viagem cheia de performances, luzes, cenografias e conceitos. 

O vórtice no mapa já espalhou pesquisas de Cashu, Violet, Guilerrrmo, Valesuchi, Escarrbe, Kakubo, Urias, Ventura Profana, Mark Ramone, Igor Albuquerque, Amanda Mussi, Carol Mattos e muitos outros. Além de convidar grandes nomes para o line up, a festa apresenta Teto Preto através da MAMBAREC (gravadora da Mamba Negra).

A banda é formada por Laura Diaz, Loïc Koutana, Pedro Zopelar, Sávio de Queiroz e William Sprocati. O quinteto estourou em 2016 com o primeiro álbum, Pedra Preta, usando performance, sons e moda como mídias comunicativas. O grupo constrói um ambiente de trocas interpessoais contra a ignorância e intolerância e costura diálogos com o cenário político atual em músicas como “Bate Mais” e “Gasolina Neles”. O clipe de Pedra Preta, a faixa título, ganhou o Prêmio de Melhor Direção Nacional no Music Video Festival, em agosto de 2017.

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William Sprocati, Sávio de Queiroz, Laura Diaz, Pedro Zopelar e Loic Koutana – Foto: Keiny Andrade

“O corpo é um corpo curioso e revelador, sobretudo, um corpo social sensível às mudanças da sociedade”. “Body in Revolt”, Emio Greco & Pieter C.Scholten (Traduzido do inglês)

Quando a Primeira Guerra chegou ao fim, o Manifesto Dadaísta surgiu para desconfigurar o pauperismo artístico no teatro, literatura, música e outros tipos de arte. Se negando a aceitar o tradicionalismo, uma variedade de corpos, corpas e corpes advertiram por meio da performance o frenesi social.

A performance artística nas artes plásticas busca constantemente engajar o público nessas experiências singulares. Na cena underground de sampa não é diferente – Alma Negrot, Valentina Luz, Irmãos Brasil, Transalien, Guis Bassan, Juana Chi, Satine, Euvira, Kewin Bo, Jade Lee e outres provocam cada serpente do ninho. Maquiagens, tecidos, gosmas e correntes remodelam suas formas e personalidades a fim de transparecer o assunto que for necessário.

A adaptação virtual da Mamba Negra trouxe novas possibilidades. O momento levantou questões em rodas de conversa como a “Existe cena pós Covid?” – feita por Cashu, Endiabrafalda, MC Dellacroix, Jess Paulinne, Giovani Facc e Raphael Caioni no Facebook. Após o estudo de novas formas de ocupação, a festa comemorou seu sétimo aniversário no Zoom com um line up mais que completo: Eli Iwasa, Aimée Dezon, Guis Bassan, MÌWÍ, BADSISTA, KARMALEOA, Nogayra, Miss Imigration e mais.

“As preocupações feministas estão dentro da tecnologia, não são um simples verniz teórico. Estamos falando de co-habitação: entre diferentes ciências e diferentes formas de cultura, entre organismos e máquinas. As questões que realmente importam (quem vive, quem morre e a que preço) – essas questões políticas – estão corporificadas na tecnocultura. Elas não podem ser resolvidas de nenhuma outra maneira`.` – “Antropologia do Ciborgue“, Donna Haraway, Hari Kunzru e Tomaz Tadeu.

O registro desse ajuste no documentário 100% independente Puta Dor, estreia da Troikka Studio, tem a participação de Loic, Laura e Cashu, além de integrantes das festas e coletivos CARLOS CAPSLOCK, Plano, KODE, Lust, Avulsa e outras. O lançamento está previsto para o final de novembro e, enquanto isso, o short film “The Sound and Fury of São Paulo”, de Teo Mannu e Alessio Ortu, também, conta com a MB entre os envolvidos, ganhando lugar no CinemaQueer, San Francisco Independent Short Film Festival e no DOC’n Roll Shorts.

 

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