Por: Lucas Arnaud
* Entrevista de capa para a House Mag impressa #46, de janeiro, com 21 mulheres em destaque. Melissa é uma delas e reproduzimos a entrevista agora no site pra vocês:
No crescente mercado brasileiro da música eletrônica, eis que surge, já em 2016, uma nova empresa de produção de eventos e shows: a Supernova. Composta por sócios com ampla experiência no ramo, a empresa já inaugurou com um cliente de peso: o ULTRA BRASIL. “Desafio e superação” – é assim que Melissa Piper, uma das sócias do Supernova (e nossa entrevistada), define o trabalho por trás de um dos eventos de música eletrônica de maior porte no país.
Melissa adentrou o ramo da música em eletrônica em 2000, tendo portanto cerca de 16 anos de carreira nessa área. Quando era mais jovem, teve contato com a produção de um evento internacional – experiência que capturou seu fascínio e que desvendou para si sua vocação: a produção de eventos. Desde então, Melissa tem se tornado referência em sua profissão, tendo atuado em eventos como o Rock in Rio, Sónar e Rio Music Conference, Red Bull BC One e Ultra Brasil, dentre muitos outros. Mais recentemente, ela se tornou responsável (junto a três sócios) pela Supernova, empresa de futuro muito promissor no mercado brasileiro (e já com alguns grandes eventos na lista para 2017, como o próprio Ultra Brasil!).
Confira nossa conversa, na qual ela conta um pouco sua história como profissional, além de compartilhar algumas experiências e desafios da atuação profissional da mulher na cena da música eletrônica brasileira:
HOUSE MAG – Como você começou a atuar profissionalmente no ramo da música eletrônica?
MELISSA PIPER – Eu comecei em 2000 quando fui assistente de produção artística no Skol Beats no Rio. No ano seguinte me mudei para São Paulo e fui produtora artística do Skol Beats por mais 3 anos pela B/Ferraz. No começo confesso que achava tudo bem barulhento, lembro de ver Jeff Mills e não gostar!! Acho que esse era meu ponto a favor na época, estava ali para trabalhar, não curtia muito a música… Até ver Groove Armada em Curitiba no Creamfields, que também trabalhei, mas já com o Luiz Eurico, que na época ainda era Sponge a empresa dele. Ai me apaixonei pela música eletrônica.
HM – Há quanto tempo você é produtora de eventos? Conte-nos um pouco sobre sua trajetória na profissão – que eventos você organizou?
MP – Comecei na faculdade, estudava para ser Relações Publicas e fazia freela de intérprete nessa época, além de estágios variados. Em 98 fui intérprete da equipe de produção dos Rolling Stones. Tive a chance de ver de perto como era uma equipe de produção gringa e fiquei fascinada. Já fazia estágio de produção em TV. Mas quando vi o palco sendo montado, a quantidade de pessoas envolvidas para fazer aquilo acontecer, o show, falei para mim mesmas “é isso que eu quero”.
Mudei-me para São Paulo em 2001, para mim profissionalmente foi muito bom. Fiz inúmeros eventos que me fizeram crescer, topava tudo para aprender e também pagar as contas. Fiz desde estagio em empresa de cenografia na Barra Funda por que na época trabalhava também para o São Paulo Fashion Week e precisava entender sobre cenografia e montagem, como shows de Rock tipo Cold Play e Festivais de Hip Hop e Rock com Linkin Park e Snoop Dog pela Mondo, além de pequenos eventos de promoção e corporativos em outras produtoras de São Paulo. Conheci o Luiz Eurico nos Skol Beats e um dia ele me chamou para fazer um freela no Brasília Music Festival. E foi assim que comecei a trabalhar com o ele e com o Edo. Éramos Sponge and Bulldozer, tinha ainda o Tiago, éramos só nós 4! Eu cuidava de todo o setor internacional: contratos, vistos, logística e tour managing. Teve a mudança para 3Plus, no qual fiquei mais uns anos, e depois me mudei de volta para o Rio.
De volta ao Rio comecei a fazer trabalho de planejamento e controle de qualidade em algumas festas e coordenação artística em alguns festivais como o Chemical Music Festival. De uns tempos para cá tento fazer mais o que gosto, financeiramente isso nem sempre é possível, mas eu tento. Faço os vistos e ajudo no Backstage do Rock in Rio desde 2011, fui coordenadora artística do Sónar e Rio Music Conference em 2012, Stage manager do Red Bull BC One, Logística do Amazing Race Israel que teve no Rio, vistos do Festival Terra, Backstages de alguns shows, fui produtora executiva do Rio Music Conference de 2013 a 2015 e fiz consultoria para a Som Livre junto com Leo Janeiro para o selo Austro.
HM – Que eventos você mais gostou de produzir? Por quê?
MP – Produzir evento é tipo que nem ter filho, tem que esperar, planejar, cuidar, parir ele é sofrido, mas quando nasce e cresce a gente se enche de orgulho com o resultado. Hahahahahahhaaa…. Acho que Skol Beats vai ser sempre o que me mais me marcou, foi meu primeiro, foram muitos desafios pessoais e da equipe, eu era novata. Conheci muitos profissionais incríveis, vi tanto DJ bom, era tudo tão novo! E o Ultra, pois foi também um grande desafio com todos os embargos do Iphan e trocas de lugar. Foi a primeira vez também que tive a chance de escolher e coordenar uma equipe tão grande, aprendi muito, foi incrível trabalhar com tanta gente boa! Isso não é todo dia que acontece!
HM – Como é ser uma produtora de eventos no mercado brasileiro? Com que desafios você tem que lidar nessa profissão?
São muitos os desafios nessa profissão. Por onde começar, vou ter que fazer o top 3 para não falar muito.
Acho que primeiro desafio é o quanto você se doa para ser produtor, são jornadas de trabalho de 10-15 horas por dia. Sem feriados e fins de semana, dependendo do tamanho do projeto, você só vive aquilo por meses. Quase não vejo amigos e família nessas fases (sorte que eles já se acostumaram). Meu primeiro casamento acabou por causa do trabalho.
O segundo desafio é como mulher, era um mercado muito masculino, acho que ainda é mas um pouco menos, mas hoje dependendo do setor que você trabalha nem é mais tanto assim… É difícil ser mulher e ser chefe, parece que você tem que sempre provar algo mais, tem que ter certeza do que está fazendo não pode errar, não pode se estressar que senão você está dando piti (sim já ouvi isso, “para de dar chilique”). Tem homem que resiste, não aceita receber ordem de mulher, bate de frente. Tenta falar com 10-20 carregadores que você quer que eles façam algo para você no meio de uma montagem. Ou sentar numa mesa de reunião de diretoria, ser a única mulher e explicar o porquê que você quer que seja do seu jeito, por experiência sua, explica isso para esses 5 caras te medindo por que você é mulher.
O terceiro desafio é o nosso país, como é difícil produzir aqui. O jeitinho brasileiro da vergonha quando é você que tem explicar a gambiarra para o gringo. Prestadores de serviço medíocres, políticos sem escrúpulos, leis sem nexo feitas só para arrecadar mais dinheiro. Imposto, imposto, imposto que não acaba mais! Quem banca evento no brasil tinha que ganhar uma medalha, por que não é nada fácil fazer um evento virar aqui no Brasil.
HM – Você foi produtora executiva de um dos maiores (e mais recentes) festivais de música eletrônica do país, o Ultra Brasil. Como foi produzir um evento desse porte?
MP – Desafios e superação são as palavras que me veem à cabeça. Sem a nossa equipe incrível não teria sido possível. Eu tenho a sorte de ter 3 sócios que são profissionais de primeiro calibre (sim todos homens). Marcelo Falcão foi nosso Diretor de Produção e o Felipe Bittencourt foi Produtor Executivo também, pois uma pessoa só não daria para cumprir esse papel e o Tiago Machado foi Production Manager. Nós 4 e mais um mundo de produtores, juntos, conseguimos fazer o evento. Passamos meses planejando e de repente tudo muda, isso aconteceu duas vezes! Na sexta, uma semana antes do festival, estávamos nós 4 no Sambódromo em final de desmontagem das Olimpíadas, olhando aquele fim de evento que era o espaço e pensando “ok vamos mudar tudo de novo e tem que ficar pronto em 5 dias”. Foi intenso, varias vezes olhamos um para o outro e nos falamos “vai dar certo” com um frio na barriga. Mas acho que é isso que faz um bom produtor, planejar é fácil, difícil é lidar com o que não está planejado e fazer aquilo funcionar. Saber lidar com o caos sem entrar em pânico é o pré-requisito numero 1 para um produtor.
HM – Quais os planos futuros para a sua carreira e para a Supernova (sua produtora de eventos e shows)?
Continuo trabalhando e fazendo o que amo. Amo muito o que faço e acho que isso é o mais importante em qualquer carreira. Supernova vai fazer o Ultra 2017 de novo, já estamos trabalhando nele. Temos o nosso projeto chamado Kode Project, que é um portal e festas voltados para o Techno, esse é nosso (Eu e Felipe) projeto de coração junto com o João Paulo que fez toda a direção de arte e a Ananda Nobre nossa residente linda. (kodeproject.com).
Estamos fechando outro festival para 2017 e algumas turnês, mas ainda não posso divulgar . Espero que a Supernova tenha vida longa!
HM – Como você vê a presença feminina na cena brasileira da música eletrônica, de modo geral?
MP – Fomos chegando aos poucos, conquistando o nosso espaço, acho que ainda falta na questão de igualdade de salários, ainda mais em cargos mais altos. Entendo que certas funções são mais masculinas assim como outras são mais femininas, normal. Mas o salário tem que ser igual em cargos iguais. Isso ainda é um assunto delicado de discutir e de implementar. Mas estamos caminhando na direção certa, e acho que isso é o que importa.
Eu acredito na igualdade no trabalho, mas que isso sirva para os dois lados. Muitas vezes quis ficar em casa com cólica, mas fui arrastando pois não acho legal não ir, o homem não teria esse “problema”.
E antes que alguém fique chateado com o que eu disse, esse é o ponto de vista do homem que me contratou, entende? Sempre tento ver os dois lados da questão e tento ser justa comigo e com os outros. A mulher tem mais desafios que um homem no mercado de trabalho, sem duvida, se tiver filhos então, jornada tripla! Temos que nos cobrar muito mais, por estar sempre tendo que provar que somos tão capazes quanto eles. Me cobrei muito sempre, quero ser sempre a minha melhor versão e dar o meu melhor quando estou trabalhando.
E ainda ser bonita, magra, com cara de feliz, elegante e gentil! As pessoas sempre esperam isso da mulher. Mas também se for muito bonita perde o respeito, pois ninguém leva a sério mulher muito bonita, entende? É complicado achar o equilíbrio nisso tudo, o mundo ainda é muito machista, mas me consolo no fato que as coisas estão mudando e para melhor. Nunca me considerei uma feminista. Até por que ser feminista era uma coisa feia, era quase um palavrão, a falta de conhecimento leva a esse tipo de desentendimento. Tento sempre explicar isso para as gerações mais novas, precisamos ser fortes se queremos ver mudança. Queremos igualde social, politica e econômica, só isso. Chame do que quiser.
Alguma mensagem final para as mulheres que atuam (ou pretendem atuar) no mercado brasileiro da música eletrônica?
Coragem. Não tenha medo de seguir o caminho que você escolheu. Humildade. Não nascemos sabendo tudo, aprender é o grande barato dessa jornada.
Ame o que faz. Sem isso nada faz sentido, tem que ter amor em tudo que se faz. Cada evento que eu faço eu aprendo algo de novo no âmbito profissional e no pessoal. E isso faz tudo valer.
