Por: Heloisa Vidal
“No final tudo sempre acaba se encaixando de alguma maneira” — até mesmo (ou principalmente) tratando-se de música.
Como prova de que a afirmação é válida, trago aqui um exemplo vivo. Exemplo que se moldou e adquiriu forma dentro das peripécias do tempo, e que é capaz de atravessar qualquer barreira física: o minimal romeno.
Ele, que possui traços singulares e acentuados, força e intensidade, que prioriza os detalhes de maneira profunda e intimista, que se destoa dos demais sub-gêneros por seu groove peculiar, e que de modo tênue acolhe para si diferentes expressões artísticas e experiências, exige do receptor tanto um estômago mais resistente quanto ouvidos apurados e pacientes. Mas, apesar de todo e qualquer pesar, chegou de mansinho em terras brasileiras e por aqui, de modo espontâneo, conquistou nossos corações e já pode ser considerado como mais um membro da família.
Tudo começou lá na Romênia, um país tão multicultural e cheio de dificuldades quanto o Brasil. Um lugar que beirou o esquecimento no leste europeu, e que até poucos anos adotava o comunismo como doutrina econômica e política — o que dificultou direta e indiretamente o desenvolvimento artístico local. Porém, como dizem, há males que vem para o bem, e foi assim mesmo, diante de todos os empecilhos e dos meios de comunicação restritos da época, que a sede por algo novo aflorou no coração de alguns conterrâneos.

Eis então que aparece na história uma alma categórica disposta a fazer com que toda essa sede fosse transmutada num drink forte de muita esperança, amor e foco. A alma em questão seria Radu Bogdan Cilinca, aka Rhadoo, um amante nato da música, criado sob o som emanado das cordas do Folk e de todo o swing do Jazz. Um produtor, DJ e remixer que desenvolveu através de muito trabalho e talento, uma leitura de pista admirável e — ao lado de Raresh e Petre Inspirescu — um estilo capaz de conciliar o novo com o velho em uma atmosfera de “máquina do tempo”, que reformulou os conceitos sobre o que seria um som futurista à época. Um artista completo que alastrou por toda a Romênia — e mais tarde, pelo mundo — o desejo ímpar de fazer da música a principal fonte de conexão entre as pessoas de maneira intrínseca.
Todos estes atributos e mais uma enxurrada de adjetivos que não podem ser rotulados, ficam muito evidentes em suas produções de vibrações aguçadas, como é o caso modelo a seguir:
Rhadoo – Geemac (Uma das duas composições que fecham seu EP Arhiva, lançado pela label Understand em 2012, e que dá uma pala da amplitude e profundidade que o romeno é capaz de atingir)
O que poucos poderiam imaginar um dia é que, a semente do Ás em questão, também renderia bons frutos aqui no Brasil. Plantado no ano de 2009 em São Paulo através do projeto Mothership no clube D-Edge, o grão de células predominantemente minimalistas permaneceu em estado de hibernação por um bom tempo, até que, por fim e na hora certa, em prol de nossas próprias necessidades dentro do cenário musical, o mesmo germinou.
Germinou e floresceu num período em que um crowd considerável por aqui escontrava-se cansado do vazio da monotonia que várias noites e festas vinham oferecendo. Era fato que a desorientação estava se instalando de forma vagarosa entre pesquisadores profundos de sonoridades minimalistas no Brasil — e entre aqueles sedentos por novas descobertas. Mas, mais uma vez, como dizem — e repito —, há males que vem para o bem, e foi exatamente neste contexto de insatisfação, que os princípios adotados pelo artista na Romênia, em relação à conexão entre a música e as pessoas, começaram a fazer mais sentido devido ao anseio de vários brasileiros por ares novos e curadorias mais consistentes.

Foi então que, pesquisando mais sobre um dos precursores da cena romena e das alomorfias que esta passou em suas mãos, artistas daqui desenvolveram total respeito pelo trabalho realizado pelo músico, e resolveram agregar, de forma cautelosa e progressiva, tudo de bom que foram encontrando pelo caminho.
Caminho que, não dessemelhante do que aconteceu na Europa, foi aberto em solo brasileiro por Rhadoo há um bom tempo atrás sem pretensão, e que alcançou patamares inéditos em 2016 de forma natural por conta de seu exemplo e do investimento de várias pessoas nesse segmento. Sem margem para indagações, méritos de uma tragetória árdua que possibilita dizer que 2016 foi um ano muito importante para a ascensão do minimal no Brasil. Tivemos o privilégio de receber artistas de diferentes localidades do mundo que compartilham os mesmos ideiais e que, principalmente, carregam em seus cases, produções dessa vertente tão perceptível.
Dentre algumas passagens que propagaram boas experiências e sensações em vários de nossos estados — com ênfase em SC, SP, PR, RS e RJ —, vale relembrar a vinda do japonês expert em vinis, Pi-Ge em Florianópolis pelo projeto local MINIM;

Do duo exótico e de produções equiparáveis, ToFu, nas cidades capitais de São Paulo(D-Edge), Rio de Janeiro (KØDE Project) e Florianópolis (MINIM);

Do DJ de mixagens marcantes, Mihigh, no aniversário da festa independente SUBDIVISIONS, na grande São Paulo;

Da respeitável Vera, dona de uma pesquisa estridente e venerável, pelas cidades de Curitiba (Detroitbr – Club Vibe) e Florianópolis (MINIM);

(Club Vibe – vídeo/créditos: Wesley Razzy)
Do francês Lowris em Pelotas (Crema), Curitiba (Patterns & Music Nerds), e São Paulo (SUBDIVISIONS), que através de sua sincronia sem igual, e de todo seu conhecimento e simpatia, deixou um público mais afiado sonoramente e levou a certeza de um retorno certeiro;

E de ninguém mais, nem menos que, o também romeno Petre Inspirescu, bastante conhecido como Pedro, que ao lado de Rhadoo e Raresh, compõe o selo A:rpia:r — projeto que ajudou na profissionalização da cena house e minimal do país europeu em evidência.
Petre veio ao Brasil no início do ano passado, mais precisamente dia 9 de janeiro no Terraza Music Park:

E retornou este ano no Warung Beach Club através do RA in Residence.
E se você achou que esta breve sequência de 2016 foi de tirar o fôlego, aperta o cinto e se prepara…
Apesar de não ser novidade que 2017 mal chegou e já entrou sem bater na porta após ter se iniciado com uma noite épica proporcionada por Pedro no Warung, temos agora um fato que reforça ainda mais que esse ano não veio para brincadeira. Receberemos dentro de poucos dias, em nosso país, o provedor de toda a mágica, Rhadoo.
O pioneiro aterrissa em nosso território com datas marcadas para os dias 10 de fevereiro em Florianópolis – no Terraza Music Park -, e 11 em São Paulo – pela marca Serialism -.

Seu contato chegará sincronizado de duas noites com apresentações de caráter longo e suficiente para transpassar toda a sua excentricidade de forma instigante e digna de transição por meio de uma construção simbiótica entre lugar, som e pessoas. O que não só comprova que a ascensão do minimal está apenas no começo, como prova, através do retorno do eufônico, que a afirmação do início da matéria é válida, e que de fato no final tudo realmente se encaixa de alguma maneira.
Completando e finalizando, algumas palavras de Wesley Razzy, DJ, promotor de eventos e booker que está diretamente vinculado ao contexto dentro de tal segmento:
“Muito se ouve da moda do minimal nessas últimas semanas. Até acho engraçado esse termo. O `gênero` conquistou seu espaço no mercado de maneira bem orgânica e lenta, foram enfrentadas diversas barreiras para se atingir o resultado que vemos hoje. Como consequência deste `movimento`, temos mais espaço para tocar esse som e posso trazer artistas como Rhadoo e outros com maior frequência. Viabilizar a vinda de um dos melhores Deejays do mundo, e pioneiro do minimal romeno, é a mais clara demonstração de que o cenário está se modificando e isso resultará em coisas muito boas que ainda estão para vir… Watch this space!”
