Peguei meu diploma, e agora? Já posso me considerar um DJ?

Por Alexandre Albini (texto publicado originalmente em outubro de 2012 no psicodelia.org)

Discotecar não é assim tão instantâneo como muitos imaginam… Leva tempo e vem com a prática. E estejam certos, é bem mais complexo que só dar o play. Não é em apenas duas semanas de aula que se aprende tudo sobre uma arte como essa exige, por maior prodígio que seja. “Colar batida” como no modo antigo é até possível realizar com maestria em um período razoável, mas conseguir o tão precioso feeling requer um período muito maior que isto. Hoje qualquer um — com disposição e auxílio de um software — consegue fazer um set mixado, isso está mais do que claro. Mas ter a habilidade de contar uma história com um repertório coerente, dando o que a pista precisa e fazendo com que ela funcione, são poucos que executam com perfeição.

Por isso não espere ser o “melhor de todos” nos primeiros meses, achando ter a capacidade de ser o principal da festa logo de início e conseguir assim segurar a pista durante toda apresentação. É algo pouquíssimo provável. Há uma fase de aprendizagem e crescimento imprescindíveis anteriores a isso, porque ninguém adquire tamanha competência do dia pra noite. É preciso começar em horários mais modestos, até ganhar segurança para enfrentar desafios maiores, pois uma responsabilidade dessas carece muito mais do que o simples objetivo de não errar. E “tocar bem” no seu quarto/estúdio não lhe garante sucesso na pista, devido a falta daquele feedback imediato que torna relativo definir qualquer tipo de parâmetro. Cada um tem suas particularidades, mas bom senso é fundamental.

Caso o intuito seja somente diversão, qualquer coisa que faça perante seus amigos estará de bom tamanho. Por esta razão, fica sem sentido exigir dedicação em uma atividade que nem mesmo o próprio realizador leva como prioridade. Caso seja encarada como profissão, o que resta é treinar e se dedicar para diferenciar-se entre tantos outros. Com a atual banalização da técnica, o repertório — que sempre foi e atualmente ainda mais — se torna um diferencial fundamental. Conforme expressei no texto sobre a valorização do warm-up, meu conceito sobre DJ é a do pesquisador, aquele “garimpeiro incansável” que não mede esforços para trazer sempre algo novo para os que o acompanham.

Figura representada por aquele artista que precisa conhecer um pouco de cada gênero. Seria como o verdadeiro especialista, que inicia os trabalhos da noite, pegando a situação do zero; criando assim uma atmosfera única e convidativa, subindo aqueles “dois ou três degraus” que vão fazer com que o início do próximo artista, seja quase continuação do seu próprio set. Desta forma, além de seguir uma linha de som coerente — no que se refere à evolução e ordenamento das faixas —, este aquecimento deve ter relação, principalmente, com a proposta do evento em questão.

Logo, não há fórmula, gênero ou método pré-estabelecidos. É de se esperar — exceto em festivais — que seja feito com um bpm mais lento, não estando nunca preso a rótulos. Com isso, tem o intuito não de agitar e sim de preparar a pista para o que virá a seguir, gerando a expectativa necessária para o “ápice” programado. Engana-se quem acredita que precisa ser necessariamente com músicas novas. Caso seja algo mais antigo, que se encaixe de forma adequada no momento, perfeito. A “maneira correta” de como ser executado pode até ser ensinada, mas depende tanto da experiência, feeling e da bagagem musical adquirida, pois são estes as qualidades que darão a segurança necessária.

Partindo desse entendimento, realize com empenho essa função. Não tenha medo de apostar em sonoridades desconhecidas, e deixe de fazer o óbvio mostrando o que já estamos fartos de saber que funciona. Escute de tudo que puder no início. Aprenda a reconhecer facilmente cada vertente. A maturidade musical virá à medida que for ampliando seus conhecimentos. Por isso, opte por uma vertente ou linha de som, e aprofunde-se. Bom mesmo é ouvir de quem também pesquisa que não conseguiu “achar” nenhuma durante todo o set. Melhor ainda quando isso vem dos que realmente entendem. Será que arriscar é tão “perigoso” assim?

As pessoas muitas vezes vão a determinados lugares com a intenção de terem experiências sonoras inéditas, e não de escutarem o que já conhecem. Surpreenda! Elas esperam que isto ocorra, em boa parte dos casos. Caso seja sua única ocupação ou a que dedique maior parte do tempo, tente ser o melhor que conseguir. É preciso trabalhar duro, pois nada acontece por acaso. Não se iluda com a fantasia de dinheiro fácil, fama repentina e retorno rápido do investimento, porque não traduzem a realidade. São raríssimos os artistas que conseguem notoriedade, e um bom número de gigs, já no primeiro ano de carreira.

Não tenha esperanças que irão bater na sua porta clamando por seus serviços, porque não é assim que as coisas funcionam. Mostre sua cara e faça acontecer. Frequente as festas e demonstre interesse. Seja ativo nas redes sociais e expanda seu network. Corra atrás! O tamanho do seu sucesso, e o valor que ele agrega, está muitas vezes ligado ao quanto doa de si. E não se assuste por o mercado estar extremamente saturado, pois jamais faltará espaço para a qualidade. Realizando um trabalho sério, sua hora vai chegar. Seja paciente e saiba aproveitar as melhores chances. Sucessos momentâneos são passageiros. Quem não tem história, na hora que precisa provar o que sabe, não tem o que mostrar.

Não deixe que seu ego o torne mesquinho, a ponto de sentir inveja dos que acabam tendo maior destaque em um primeiro momento. Faça boas amizades no meio, porque são estes que te ajudarão a crescer. Quando há união a cena fica fortalecida, o que acaba abrindo novas oportunidades. Por isso, nunca se esqueça de dar importância aos profissionais que já estavam nisso antes que você. Não seja ingrato com quem lhe deu suporte e que o ensinou a ser o que é. Valorize seus professores, e peça conselhos quando possível. Sempre há como aprender algo novo quando menos se espera. E o mais importante, humildade, honestidade e respeito acima de tudo. 

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