Por Chico Cornejo
Dentro da nossa perspectiva estereotipada desse ecossistema cultural que é criado na intersecção de uma certa musicalidade e seu entorno, costumamos associar de modo um tanto automático uma certa sonoridade a determinadas características urbanas. A caricatura aí criada então nos faz conceber uma psicogeografia musical excessivamente rígida, na qual a paisagem urbana de uma Detroit, Berlim ou Sheffield necessariamente inspiraria alguns traços estilísticos que remetessem diretamente às realidades distópicas ou cenários melancólicos de um futuro prometido nunca totalmente cumprido que essas metrópoles encerrariam.
Um neo-romantismo industrial que fora em muito nutrido pelo modo como essas paisagens nos foram apresentadas pela mitologia do techno desde o início e sedimentou de maneira profunda em nosso subconsciente. Mas, se tomarmos essa moldura interpretativa acriticamente, como encaixar Los Angeles e sua fachada praiana e idílica nessa narrativa? Onde entraria La-La-Land, a terra da fantasia cinematográfica e das frivolidades esportivas costeiras que fizeram parte de muito do que consumimos como crianças e adolescentes, assim como nossos pais, no último meio século?
A música de David Flores é uma sofisticada proposta de cifrar códigos rítmicos e elaborar arranjos melódicos que dialogam diretamente com o âmago das paisagens ensolaradas de sua terra natal. E, assim que suas intrincadas estruturas musicais nos atingem, sentimos elas tão contundentes quanto aquelas que compõem o som que usualmente é aparentado a realidades decadentes tão distintas daquela de sua Los Angeles. Ela mesma uma urbe que pode ser tão inóspita e até decadente quanto aquelas outras, mas que possui uma poética própria, tropical por vezes, que ele sabe muito bem decifrar no mais puro idioma do techno.
Você vem de um lugar dos Estados Unidos que não é usualmente associado à lôa tradicional do techno que é tecida pelo mundo afora, muito diferente de Nova Iorque, Detroit, Chicago ou até Minneapolis. Como era a cena na qual você cresceu?
Quando comecei a ir a festas nos meados dos noventa havia muita coisa rolando. Tinha de tudo, desde raves imensas a festas em galpões a clubs e festas no deserto e até em quintais. Eram tempos interessantes para a cena aqui de Los Angeles. Todos os gêneros musicais se misturavam nessas festas, não eram apenas noites de techno, você tinha uma mistura enorme de música na mesma noite e era muito empolgante.
Havia lojas de discos nas quais os integrantes da cena se encontravam ou quaisquer outros lugares que galvanizaram o movimento local?
Sim, sem dúvida. Quando comecei a comprar discos eu ia muito a Holllywood, mais especificamente à Melrose Avenue que abrigava umas cinco ou seis lojas na mesma rua. Cada uma delas ficava a distância de uma caminhada da outra, como Beat Non Stop, Wax Records, DMC, Street Sounds, Fat Beats. Também havia Orange County com a Dr Freeclouds (que ainda existe), era um grande lugar para encontrar outras pessoas com interesses afins e encontrar muita música excelente.
Ainda falando de lar e origens: você ainda vive no Sul da Califórnia? Como isso afeta sua vida como DJ e produtor?
Sim, eu ainda vivo no ensolarado sul da Califórnia. A única parte difícil de viver aqui são os longos vôos. É cansativo, mas creio ter me acostumado bastante. Tirando isso, é bem legal morar aqui. Temos um clima gostoso, comida e cerveja excelentes, uma cena vigorosa e tenho meus amigos e família por aqui também. O que há para não gostar? Me mantém feliz e produtivo, afinal de contas.
O Truncate já se estabeleceu como uma “marca” de destaque entre os amantes de um som específico, e com isso quero dizer que ele se tornou um fonte confiável de música para um público bastante exigente. Isto seguiu um plano desenhado previamente a fim de encontrar seu lugar num crescente cenário ou foi o resultado natural de trabalho dedicado com o objetivo de prover algo que sentiu que poderia contribuir para enriquecer aquele contexto?
A ideia por trás do Truncate definitivamente não foi planejada para se tornar o que é hoje. Tudo começou como simples ferramentas de pista para amigos DJs. Eu fiquei bem surpreso no início, levando em conta o fato de que as faixas eram tão simples, mas creio que foi justamente o que as fez especiais. As pessoas sempre me dizem que tenho um som característico e que conseguem discernir uma faixa do Truncate. Hoje em dia acho que é difícil se destacar com tanta música sendo lançada e tantas soando como se fizessem mímica umas das outras. Contudo, se concentrar em um estilo é importante.
Já que estamos falando do selo, falemos de formatos. O Truncate parece ter um compromisso com a qualidade acima de tudo, independente de formatos e tanto os digitais como o vinil têm sido os veículos para seus produtos desde o início, até com uma fita cassette para comemorar cinco anos do selo. Então, todo o debate do analógico versus digital não parece ser muito uma preocupação para você, correto?
Definitivamente isso não me preocupa. Vindo de uma trajetória na qual o vinil foi crucial, entendo até certo ponto o lance purista, mas espezinhar outro artista ou DJ por não tocar ou lançar discos é simplesmente uma tolice atualmente. Estamos em 2018, as coisas mudam e a tecnologia também. Certamente lançamentos estritamente digitais vão ter mais dificuldade em se destacar e, portanto, em serem encontrados. Equipamento analógico está mais barato, o que é ótimo, mas mesmo assim, use o que você curte! Eu pessoalmente ainda adoro prensar vinil porque quero ter aquele meio físico e vou continuar produzindo enquanto puder, talvez até alguns exclusivamente em vinil em rara ocasiões. Mas continuarei lançar em formatos digitais também.
E quanto ao Brasil? Algum lembrança ou expectativa com relação ao país agora que em pela primeira vez tocar?
Vai ser minha primeira vez no Brasil e nem preciso dizer o quão empolgado estou! Tenho muitos amigos produtores e DJs que já tocaram por aí e continuo a ouvir coisas fantásticas e que a cena tem visto uma revigoração nos últimos tempos. Não tenho muitas expectativas para ser sincero, apenas quero me divertir e espero que a pista vá no embalo.
Olhemos para o futuro agora. O que se encontra adiante para você e seus projetos que possa dividir conosco neste momento?
Como estou constantemente no estúdio, os próximos passos são lançamentos de vários remixes e EPs nos quais estou trabalhando e sairão daqui a pouco. Há uma colaboração com a qual estou muito contente: a com o Ben Sims. Iniciamos um pequeno projeto e teremos um EP que, espero, veja a luz do dia entre março e abril de 2018, então é bom ficar ligado. Além disso, vão rolar alguns sets b2b meus com ele pelo mundo afora, o que também vale a pena conferir se estiver por perto de onde passarmos.
