Indícios de fraude e conluio: R$ 545 milhões em eventos da Prefeitura de SP foram parar em rede de empresas conectadas

Uma rede de 15 empresas e organizações não governamentais com laços administrativos, familiares e fiscais recebeu ao menos R$545 milhões da Prefeitura de São Paulo entre 2022 e 2026 para organizar grandes eventos públicos. A revelação, baseada em apurações do portal UOL, levanta graves indícios de conluio e possível desvio de recursos públicos na gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB).

De acordo com a reportagem, as secretarias municipais de Esportes e Lazer, Turismo e Cultura, além da SPTuris (empresa de turismo da capital), firmaram 34 contratos e pelo menos 57 aditivos com o grupo. Os recursos bancaram atrações de alto impacto, como o Carnaval de Rua, o Natal Iluminado, a Virada Esportiva, o City Tour São Paulo e diversos torneios e atividades culturais.

No centro das suspeitas está a empresa MM Quarter, que, segundo a Controladoria-Geral do Município (CGM), era controlada via procuração pelo ex-secretário-adjunto de Turismo Rodolfo Marinho – o mesmo que chegou a comandar a pasta entre 2022 e 2024. Marinho e a sócia oficial da MM Quarter, Nathalia Carolina da Silva Souza, mantiveram juntos uma empresa de consultoria política antes de ele assumir o cargo público. A CGM classifica o arranjo como uma “sociedade oculta”.

As ONGs ASA (Associação de Bem-estar, Esporte e Cultura) e Mundo Melhor também concentram contratos milionários. O presidente da ASA, Marcelo Correia de Moraes, atua simultaneamente como gerente de operações da MM Quarter. Seu irmão, Victor Correia de Moraes, é dono da VM Eventos, uma das principais fornecedoras do grupo. A própria Mundo Melhor, presidida por Airton Pujol Faria Júnior, tem como sócio o mesmo Airton em outras duas empresas (Diverse e Servrun) que participam de cotações e subcontratações dentro da rede.

Todas as três principais contratadas compartilham o mesmo endereço comercial em um prédio no Morumbi, na zona oeste. Uma visita da reportagem do UOL constatou que, no local indicado como sede da MM Quarter, funciona uma academia, e outras salas apresentavam pouca atividade. Vários outros CNPJs do grupo apontam para galpões ou residências.

A CGM já vetou qualquer nova contratação com a MM Quarter “em razão das suspeitas de complexo arranjo de desvio de recursos públicos, com indícios de fraude e irregularidades verificadas nas contratações”. A Prefeitura informou que, a pedido do próprio prefeito Nunes, investiga desde 20 de fevereiro todas as empresas que possam ter relação comercial ou pessoal com a MM Quarter.

O Ministério Público de São Paulo (MP-SP) também abriu apuração após a demissão, no início de fevereiro, do então presidente da SPTuris, Gustavo Pires, e do secretário-adjunto Rodolfo Marinho. O caso foi inicialmente revelado pelo portal Metrópoles.

Procuradas, as empresas negaram irregularidades. A MM Quarter afirmou atuar “estritamente pela legislação vigente”. A Mundo Melhor e a ASA destacaram que o simples compartilhamento de endereço ou vínculos familiares não configura impedimento legal e que todas as contratações seguiram critérios técnicos e de qualidade.

A Controladoria-Geral do Município, no entanto, vê indícios claros de simulação de competição nas licitações e aditivos. Em um exemplo citado, a MM Quarter venceu uma licitação de R$53,6 milhões e, posteriormente, obteve prorrogação após consulta a empresas do mesmo círculo que apresentaram propostas maiores.

Segundo informou a prefeitura, Ricardo Nunes acompanha os próximos passos da investigação para tomar providências, que podem ir de demissões à rompimento de contratos.

Por Adriano Canestri

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