Durante muitos períodos da história da música eletrônica, é comum que tendências e estilos sonoros específicos fiquem em muita evidência – o que chamamos hoje de ‘’hype’’ – por um certo tempo furando a bolha até voltar para o fluxo normal de presença em rolês nichados da cena. Já presenciamos este fenômeno com o big room no início da última década, e o deep house, por exemplo. Os mais recentes no pós-pandemia foram o melodic techno e o afro house.
O que explica cada um destes hypes?
Pode ser a novidade sonora abrupta em relação ao que estava rolando na época, um senso de comunidade, como utilizar lenços no show do Keinemusik, ou as belas projeções nos eventos da Afterlife. As ‘’modas’’ vêm e vão na cena de música eletrônica com certa frequência.

A Afterlife expandiu em escala global não só os grandes telões com projeções realistas, mas tornou o melodic techno uma febre pelas pistas em todo o mundo, dos clubes aos festivais, e tornou DJs e produtores em verdadeiras estrelas. O eterno debate do uso de celulares nos shows nunca ganhou tanta força como neste período. Os eventos de melodic viraram desejo de consumo de muitos que já frequentavam a música eletrônica e de quem via os vídeos pelas redes sociais. Era a novidade da época. Era revolucionário. Hoje, o gênero ainda se mantém como uma grande engrenagem do mercado, entretanto sem a relevância gigantesca que teve há pouco. A crise da Afterlife, a grande referência no mercado, e o encerramento de suas tours no mundo podem explicar esta queda no hype, embora outros artistas como Adriatique, Artbat, Agents of Time, Mathäme, entre outros, tenham investido em suas próprias labels e identidades com fortes referências da época de ouro.

O mais recente ‘’boom’’ na música eletrônica que atraiu muitas pessoas de fora da cena foi o afro house, impulsionado pelo sucesso do trio Keinemusik, do pioneiro Black Coffee e de artistas que explodiram no período como os brasileiros Maz, Antdot e Curol. Aqui, vimos uma certa mudança do som que ganhou as trends do TikTok e os rádios para aquele que foi construído inicialmente na África. O afro house que chegou ao mainstream mantém os tambores, percussão e demais instrumentos nativos de seu local de origem, mas sua estrutura foi drasticamente modificada. O som passou a adotar vibes tropicais e vocais de pop, que produziram hits como ‘’Move’’. Isto atraiu milhares de pessoas para os eventos com característica sunset, que tinha música eletrônica atraente aos ouvidos dos novos adeptos e inúmeras faixas bombadas nas trends. Além disso, a moda foi um fator importante no hype imenso do afro house. Quem não se lembra do lenço na cabeça que &me, Adam Port e Rampa usavam que virou look de muitas pessoas nas pistas? Hoje, o afro house segue lotando festivais e clubes, mas já há alguns meses que aquela onda recuou.

Agora, chegamos em 2026 e estamos sem um novo hype de nível internacional furando a bolha, trazendo novos adeptos e gerando debates.
Temos um movimento muito forte do hard techno dominando a Europa e em crescente no Brasil, mas talvez sua sonoridade deveras acelerada, por vezes estridente e aguda, delimite um teto para chegar na grande massa. O tech house com o baixo ‘’gordo’’, chamado por vezes de minimal bass, tem sido um som repetitivo nas produções e sets. Esperava-se que fosse a nova onda, mas não teve força suficiente até aqui para conquistar novos clubbers.
Isto é ruim? Mostra que a cena está estagnada? Bom, as cenas são feitas de ciclos. Períodos de entressafra (ou podemos chamar de entre-tendências) são comuns. Em algum momento, um novo nome, label ou gênero volta a romper a bolha.
O vácuo atual é um espelho do modelo que cerca a cena. A indústria aprendeu a monetizar tendências sem cultivá-las: pega o som, empacota a estética e descarta quando o engajamento cai. O afro house que chegou ao TikTok não era o afro house de Joanesburgo, era uma versão digerida para consumo rápido. Quando estes ciclos se encerram, o que fica são sets e produções parecidos, um mercado que prefere repetir uma fórmula que já funcionou a arriscar algo que ainda não tem métricas. Esta é uma das causas de tanta música soar da mesma forma hoje.
A ausência de um hype dominante é importante para gerar inquietação na busca de um fator novo. Não significa que a cena necessariamente precise de um hype para existir – mas é de se refletir que o dito “hype” alcance sempre novas pessoas para a cena. O próximo grande movimento provavelmente já está sendo construído em algum clube de Chicago, São Paulo ou Berlim, longe dos algoritmos e dos festivais de marca. A questão não é se ele vai chegar ao mainstream, mas quando e como, e talvez ele seja mais plural e miscigenado entre estilos do que antes.
Por Adriano Canestri
