Por Irena de Almeida
Foto de abertura: Dos Santos Arte
Com dois lançamentos pela gravadora britânica Blacktone, um nesta última sexta-feira, 21, e o outro, no dia 15 de setembro, o DJ e produtor Manodom surfa a boa onda da house music e agita o mercado com suas tracks pop e materiais audiovisuais diferenciados. Focando no discurso, Manodom conversou com a gente sobre o orgulho de ser mainstream, suas estratégias diferentonas num mercado em crise, inspirações e se há lugar para a house music no novo mundo.
HM – No Brasil, parece que os artistas evitam ao máximo o cenário pop. A expressão virou quase uma ofensa e aqueles que trabalham desta forma ou se referenciam no mainstream acabam isolados, ou dominam um segmento diferente de eventos. Qual a sua opinião sobre isso? Por que o pop é tão relegado pelo mercado nacional?
O Brasil, culturalmente, acredita que o popular é de qualidade inferior, pois assim ele alcança um público maior. Fora daqui o pensamento é bem diferente. E se essas opiniões me impedissem de ir atrás do meu mercado, eu nunca teria atingido este mercado.
HM – Por que você escolheu a house music? Ela andou meio esquecida nos últimos anos, aqui pelo Brasil.
Nos anos 90 o DJ Meme fazia seu programa de rádio e foi ali onde me eduquei. A sensação de dançar nas pistas ao som do house foi que me escolheu. Uma pena que isso tenha estado afastado do Brasil por tanto tempo, mas não tenho dúvida de que o house voltará a alegrar as pistas brasileiras.
HM – Fale um pouco sobre a composição dos seus lançamentos pela britânica Blacktone. “Only You and Me” é mais romântica, “Give Me a Sign” é bem disco. Quais foram suas inspirações e o processo de produção delas?
O cotidiano me inspira muito. Vivemos a era dos likes, stories, virais e quis fazer músicas contemporâneas. Em “Only You And Me”, retratei aquele cenário de início de paixão, quando só 24 horas juntos não bastam, quase uma obsessão. Diferente em “Give Me a Sign” quando você fica esperando aquele sinal da outra pessoa, não sabe se vai rolar ou não, vocês sabem do que eu estou falando. [rs]
HM – Você trabalha com grandes vocais femininos. Como é esse processo de procura pela voz certa? Todas as suas composições são com vocais? Por que?
Eu já tive banda, cantava, minhas referências são Michael Jackson, Madonna, George Michael, Queen, soul music, então acho que me sentiria traindo minha própria história se fizesse músicas sem voz ou refrão. Estou sempre em busca de vozes que me toquem, aí tenho certeza de que também tocará as pessoas. As letras têm uma importância enorme pra mim, são um canal de expressão, por isso gosto de escrever minhas próprias letras ou contar com ajuda dos meus parceiros. Os vocais femininos são clássicos, mas, também, estou preparando algumas surpresas nesse aspecto. [rs]
HM – Folakemi e Lunna são as vozes dos dois lançamentos. Como é trabalhar com elas? Elas participam do processo de composição da letra, certo? Conte como foi.
Cada artista tem suas particularidades. Com a Lunna, nós chegamos no estúdio e ela nem tinha tido a chance de conhecer a música, direito, mas tinha levado uma letra que, para nossa surpresa (e de forma quase que mediúnica), cabia exatamente naquilo que eu planejava. Fizemos alguns ajustes na hora e gravamos. A vibe tava tão boa que até eu gravei uns vocais. Com a Folakemi eu já tinha um refrão adiantado. Logo que ouviu a música e conversamos, ela entendeu a ideia. Fez alguns ajustes no refrão e escreveu uma letra brilhante. A Folakemi é uma cantora muito experiente. Tem uma voz forte e marcante, além de muito groove. Já a Lunna tem um frescor juvenil e uma suavidade linda. São duas cantoras diferentes, mas, igualmente incríveis de trabalhar e criar juntos.
HM – As músicas vêm acompanhadas de videoclipes, e isso tem sido uma estratégia sua de carreira. Para você, qual a importância de se lançar um trabalho completo de divulgação das suas tracks, algo ainda novo no mercado eletrônico, que estava muito atrelado ao formato aftermovie?
Eu acho o formato aftermovie super legal, ele te faz sentir dentro do show, próximo do artista, mas esses clipes têm sido uma forma diferente de eu me expressar de forma mais ampla e me conectar com o público através de outros sentidos. Acabou vindo a calhar nesse momento que vivemos. Essa busca também é sobre como posso continuar entretendo as pessoas e, ao mesmo tempo, tentando sair da caixa. Aliás, tenho uma predileção por remar contra a maré. [rs]
HM – Durante a pandemia, com eventos cancelados, alguns artistas lançaram materiais diversos, tendo o atual momento como inspiração. Você também lançou o seu, chamado “Manofesto”, que contou com dois teasers sem nenhuma trilha sonora, bastante incomum para um material feito para um músico. Fale um pouco sobre o projeto.
O “Manofesto” é muito especial. Ele representa uma parte de quem eu sou e de como eu me sinto. É sobre os nossos sonhos e sobre a busca incessante de sermos melhores. Quando essa pandemia começou, ela interrompeu muitas coisas para mim e ficou esse nó na garganta. Um grito preso que eu precisava compartilhar. Sorte a minha que minha equipe e eu estamos sempre em sintonia e juntos conseguimos entregar esse material, no mínimo, inusitado. Foi tudo feito à distância de Santa Catarina e Rio de Janeiro.
HM – Como você projeta o pós-pandemia? Acredita que a house music tem vez no mundo novo?
A house music é a vingança da disco music, é a base da dance music. Então, parafraseando e adaptando Raul Seixas, “se você nunca esteve dentro da nação house, ela sempre esteve dentro de você”. Como eu disse no “Manofesto”, após períodos de crises como a que estamos passando, a sociedade sempre explode em cores, alegria, vida e arte. O house vai arrebatar a todos, pode apostar.
Ouça Manodom em spotify.com/manodom e acompanhe em instagram.com/manodomoficial.
