Por Dada Scáthach
Foto de abertura: Linda Brondi por divulgação
L U S T – no português, é um substantivo feminino que significa luxúria, vontade. Já em Brasília, a palavra é sinônimo de libertação sexual. Atualize as definições de “pudor” e abra a mente para o que acontece no sul do Distrito Federal: a festa que deixa o ambiente suado e o chão molhado com os mais variados fluidos, revela criaturas de fantasias escondidas através da arte. Em seus dois anos de existência e resistência, provou que a população tem muito mais a oferecer do que apenas seus relatórios de segunda a sexta-feira no ambiente de trabalho. Além disso, também deixou evidente as pautas sociais de urgência na capital que emana uma energia política de retrocesso.
Ainda que muitos relacionam essa proposta ao estilo de vida descrito no evangelho de Mateus, capítulo 24 e versículo 38, é indubitável que encarar sexo como um tabu em pleno 2020 é se alienar sobre assuntos como sexualidade, identidade e autoconhecimento. Para aqueles que ainda não tiveram oportunidade de conhecer os (muitos) trabalhos disponíveis na internet sobre esses temas, aqui estão alguns títulos que fazem a leitura valer a pena: “Problemas de Gênero – Feminismo e Subversão da Identidade” de Judith Butler, “Pensando o Sexo: Notas para uma Teoria Radical das Políticas da Sexualidade”, de Gayle Rubin, “Sexualidade, cultura e política: a trajetória da identidade homossexual masculina na antropologia brasileira”, de Sérgio Carrara e Júlio Assis Simões e “Gênero e Sexualidade na Atualidade”, de Leandro Collin.

Foto: divulgação
A iniciativa de criar um mundo ideal habitado por corpos livres surgiu como consequência da longa parceria entre Igor Albuquerque e Kaka Guimarães, ambos DJs e produtores culturais. Os dois acreditaram no potencial brasiliense de ocupar espaços e enfrentaram a decadência do CONIC dando vida ao club underground SUB. O aroma misto de fumaça, couro, transpiração, camisinha e alvejante remete ao The Eagle, bar leather nova iorquino.
A libido dos criadores, ou a “pulsão de vida” na definição de Freud, aumenta a partir do fomento das fábulas singulares do público. No processo que forma a identidade da festa, a troca entre quem participa e quem produz é pura, real, de ordem e progresso. Embora o desejo sexual fosse condenado como pecado no século 19, o alcance a informações mostrou que quando reprimido pode trazer consequências sérias, sendo uma delas a falta de informação e de empoderamento sobre o próprio corpo.

Foto: divulgação
DJs como Baroque Angel, Albukkeke, Nikkatze, Gezender, Deko, Demetria, Mardel, Femmenino e Joapa já esfolaram a CDJ sem lubrificante nessa grande suruba. Além da curadoria artística de Ale Adas e de performers como Altivo Neto, Marcelo D’Avilla, Aires, Fran Glam Glam, Madame Noir, Kattrina, Sabine Jay, Senhora Serena e Anthropoalien que já arrepiaram o line up, a festa recruta quem nunca fez parte de um coito conceitual.
Através das redes sociais, chamadas constantes buscam captar novas pessoas a fim de aprender e desenvolver trabalhos na cena – como nos casos de Lilith e Senhora dos Prazeres, personagens que nasceram sem castidade. Quem se dispõe à experimentação se posiciona política e socialmente com tara em dar a cara a tapa e provocar as famílias tradicionais. A inserção de mulheres nos palcos também contribuiu para que a pista se tornasse um lugar mais confortável para todas, dando basta ao machismo, sexismo, transfobia e travestifobia.

Senhora Serena, Nalita e Altivo Neto performando no Natal de 2019 – Foto: Victor Diniz
Destacar as narrativas e referências de cada integrante é essencial para o aperfeiçoamento do alvitre. Dom Barbudo, Sadic e JP AKA JP penetraram as telas nas edições on-line da festa discutindo sobre a comunidade BDSM e sobre a desmistificação da indústria pornográfica, sarrando nos preconceitos populares mais internalizados. A nova era da fibra óptica uniu a Lust a outras festas similares, como a Horny de Belo Horizonte, Dando de São Paulo e a carioca Hole, expandindo, então, os projetos em conjunto pelo Brasil.
Enquanto o isolamento ainda afasta os corpos quentes e cheios de tesão, a articulação pelo mundo virtual atinge até mesmo aqueles que nunca sonharam com nada parecido, afinal, marcar presença só depende de um dispositivo móvel. Agora pode-se dizer que além de bela, a festa também pode ser do lar. No fim das contas, a intenção nunca foi ser recatada, e sim destacar a aceitação de corpos humanos variados como ferramentas de influência no desenvolvimento de espaços de acolhimento. E claro, fazer gozar.
Curiosidade luxuosa
O CONIC, ou Setor de Diversões Sul, que foi projetado por Lúcio Costa em 1957 para agrupar cinemas, teatros, boates e restaurantes, ganhou a atenção de duas igrejas ao tornar-se um ponto de prostituição e tráfico de drogas. Visando catequizar a população presente, as instituições são vizinhas do SUB, onde acontece a Lust. Propostas de intervenção bem distintas, não?
