Por Dada Scáthach
Foto de abertura: Bike System sonorizando a obra de Mariana Delellis. Divulgação no Instagram.
Versos, melodias e batidas cruzando esquinas nas ruas de São Paulo e acompanhando a vida de milhares de pessoas que ali transitam diariamente já foi só um grande sonho. A ideia de democratizar pesquisas musicais começou a preencher os pensamentos de Mauro Farina há cerca de 10 anos, concretizando a Free Beats como a realização do estudo das pautas necessárias para sua própria cidade, completando oito anos de quilômetros rodados em 2020. O ativista, DJ e produtor que conta com mais de vinte anos de carreira, decidiu inovar o ideal de festa e criou um público fora das paredes suadas e fumódromos das boates, onde as pessoas se sentem mais pertencentes.
Buscando dar ênfase à visibilidade da cultura local, a folia relaciona diversos sons à comunidade. “Eu fundei a Free Beats nesse intuito de levar música gratuita pra rua e ter um line up diverso em que não tocava só música eletrônica. É uma festa que vai do reggae, jungle, drum and bass [aos] grandes pesquisadores da música brasileira afrobeat”, diz Mauro para a House.
O público se sente em casa devido ao reflexo da representatividade sonora e visual de artistas de todas as cores, nacionalidades, identidades de gênero, sexualidades, condições financeiras e estudos sonoros. Engrenar a urbe com tamanha diversidade atrai novos nomes e transforma os eventos em uma plataforma de acessibilidade.

Mauro Farina em divulgação no Instagram – Foto: Natália Mendes
Entre os artistas que acolheram a ideia de cultivar sons em campos pavimentados estão Thales Aurélio (DJ e produtor na cena de Fortaleza), The Twins (que atuam na cena club de Sampa), Albano Seletor (que também toca e produz com o selo Catiguria), Lei Di Dae (cantora e compositora), Amauri Homeless (que protagoniza no mini documentário “Tá Ligado”), João Laion (fundador da Sudaka) e Salvador Araguaya (que arrebenta em sets para a Mi Casa Es Festival, Pitaya e rádio Lapa55).
Não tem ingresso e nem catraca – todes são bem-vindes. A cena eletrônica que nasceu se espalhando através de instrumentos experimentais criando desconfortos, ocupações e um senso de liberdade e comunhão no século XX, inspira públicos de diferentes credos a unirem-se em prol de trocas interpessoais quando assuntos políticos e sociais tanto importam – agora e sempre.
O radar da conscientização também age ao considerar a locomoção até os locais onde os eventos acontecem e dialoga com comunidades constantemente silenciadas (como a LGBTQ+ e preta) através de equipes de segurança bem formadas e orientadas. Além disso, patrocínios e parcerias aqui e ali provam que o financiamento pode ser re-configurado para dar valor a bens em comum, como música e arte.

Divulgação no Instagram – Foto: I Hate Flash
“Ela [a festa] tem muito claro a cultura soundsystem, levar o som pra rua, mesclada ao fomento da cultura DJ de uma forma mais abrangente[…]”
As batalhas de instrumentos que nasceram em território jamaicano nos anos 1950 percorreram o mundo inteiro e, rapidamente, o soundsystem foi consolidado. Poucos anos depois em 1960 – 70, os DJs e seletores também tornaram-se parte no movimento e nomes como Duke Reid, Sir Coxsone e King Tubby, que criava tracks exclusivas para seus e outros sistemas de som, ganharam notoriedade. Os auto falantes (que tinham cerca de quatro metros de altura) ocupavam Kingstom com a companhia de DJs, vocalistas e MCs assim como no espaço cultural Casa da Luz, onde a festa ganhou notoriedade.

Divulgação no Instagram – Foto: I Hate Flash
“Por não ser uma coisa muito fácil, levar tudo para a rua, o som, o gerador, eu acabei criando o Bike System com um grupo de amigos, que é uma versão mais prática e divertida de levar a música para a rua sem ficar preso na coisa do equipamento do DJ. É uma coisa mais livre onde as pessoas vêm pedalar com a gente para levar suas pesquisas e mensagens de protesto”.
O projeto Bike System luta pela democratização da música já há cinco anos e se envolve em atividades sociais como doações de máscaras e ações para lavar com água e sabão as mãos das pessoas em situação vulnerável nas ruas. A captação de recursos acontece também através das redes sociais, deixando transparente a necessidade do apoio de quem participa pedalando e daqueles que assistem pelas janelas dos prédios. Toda ajuda é recebida com sinal verde.
Essa troca começou em um galpão de 1500m² próximo à cracolândia na Estação da Luz e prosperou nas regiões centrais reunindo pessoas sem distinção. Não tem muro e nem valeta que diminua a velocidade e presença das mais variadas engenhocas feitas a partir de bicicletas, carrinhos de camelô e carroças percorrendo a metrópole com grandes amplificadores.
Iluminar as vias com a energia dos membros já é lei. No Carnaval, época de brilho e música boa, a ideia é somar com blocos da cidade a fim de criar uma faixa de pedestres larga o suficiente para incluir pessoas de diferentes realidades e vivências em um mesmo ambiente. O Tarado Ni Você, por exemplo, contempla Caetano Veloso entre os muros da capital, enquanto o LPs de Gal, floresce os canteiros entre as sarjetas, ambos com uma pitada do esquema sob rodas que giram a cidade sem cobrança de pedágio.
Enquanto o isolamento social ainda assola os festeiros, o movimento não perde o brilho e se fortalece cada vez mais mostrando que, de fato, o foco é manter um rolê menos elitista. Na nova onda virtual que 2020 trouxe, o Bike System experimenta lives no Instagram como uma alternativa para levar os trilhos para dentro de casa e, assim, evitar aglomerações. Quem acompanha a produção através das telas consegue sentir o sol batendo na nuca e gotas de suor escorrendo pela testa, além de se inspirar com os lançamentos de novos artistas, tracks e tapes.

Divulgação no Instagram – Foto: Luca Meola
