Favela Bass? Conheça o funk do futuro – com vocês: Ruxell!

Por: Lucas Arnaud
Fotos: I Hate Flash e divulgação

Pois é, amigos. Uma das coisas que considero mais interessantes no mundo da música são as relações entre os diversos gêneros sonoros, que, muitas vezes, dialogam ao longo da história, influenciando, sendo influenciados e gerando novas pespectivas sonoras. Os convido a conferir um exemplo clássico dessa conversa entre estilos – ouça essa track:

A faixa acima, de 1988, é componente de um movimento musical que se tornou famoso nessa década na gringa, o Miami Bass. Mas, tenho certeza, não foi exatamente isso que chamou de cara a sua atenção. Você deve ter pensado: já ouvi isso em algum lugar! E ouviu mesmo:

Utilizo o emblemático exemplo acima para desenhar um pouco da infinidade de possibilidades na relação entre estilos musicais.

O Miami Bass foi um dos principais gêneros que influenciou o surgimento e a própria sonoridade do Funk Carioca – tendo este utilizado elementos daquele para criar um novo estilo que tomaria rumos totalmente diversos de sua influência.

Claro que essa não foi a primeira e nem última vez que sons tipicamente brasileiros utilizaram como ponto de partida sonoridades características de outros países.

Aí chegamos em um movimento (relativamente novo) que se desenha na cena da música eletrônica no nosso país: o “Favela Bass”, também conhecido como “Favela Trap” – para citar alguns dos modos pelo qual esse gênero é chamado. O estilo mistura elementos do funk brasileiro com o soundesign da Bass Music (e aqui se pode inserir o Bass House, o Trap, Dubstep, Future Bass, dentre outros), tendo chamado a atenção de artistas internacionais.

E para nos falar sobre esse estilo, convidamos um produtor que tem se destacado pela inovação e qualidade de suas tracks, tendo recebido, por exemplo, support de ninguém menos que Skrillex em seu icônico set no Boiler Room de Shangai: Ruxell!

Ruan Guimarães, mais conhecido como Ruxell, é um dos novos talentos que mais tem se destacado nessa cena.

O produtor iniciou sua experimentação em 2012, quando começou a misturar elementos do Funk Carioca com o Trap Music. O artista ja vinha chamando a atenção, tendo inclusive tracks em grandes canais como o Trap City, Trap Nation, KLProdutora e Cross.

Já em 2015, lançou o EP Kaozada, colaborando com produtores como Flying Buff (SP), Marginal Men (RJ), Menz (RJ), Atman (RJ), Heavy Baile (RJ) e Rocky Wellstack (Holanda). Sua track “Peace Dealer” recebeu suporte de nomes de peso, como A-Trak, Porter Robinson e Madeon.

Recentemente, lançou uma track na NEST HQ, label de Skrillex. Dito isso, confira nossa entrevista com Ruxell, onde ele nos conta um pouco sobre seu projeto, sobre a cena do “Favela Bass” e sobre o mercado da produção musical como um todo:

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HOUSEMAG: Qual foi o seu primeiro contato com a música?

Ruxell: Pelo que eu me lembro, foram lembranças do meu pai me mostrando seus vinis antigos dos anos 80 quando eu era bem pequeno. Anos depois meu pai me deu um violão velho, cheguei a tentar tocar porém não tive muita afinidade com o instrumento, então ele me deu uma guitarra e daí foi amor a primeira vista e tudo aconteceu.

HM: E com a música eletrônica? Como você se interessou pela produção musical e pelo aspecto profissional do ramo?

R: Eu sempre gostei de música eletrônica devido à influência do meu pai que era DJ nos anos 80. Cresci ouvindo muita coisa diferente, porém tinha mais afinidade com música pop e algumas coisas do charme / black music & house music.

Já no lado da produção, veio com a minha história musical. Eu comecei na música com banda de rock e eu nunca gostei de depender de ninguém pra fazer as coisas acontecerem, então na época eu vi que era possível com um investimento pequeno conseguir fazer seu próprio som em casa. Comecei com 16 anos e a ideia inicial era apenas registrar as ideias, porém, acabei tomando tanto gosto pela coisa que resolvi estudar e praticar todos os dias. Comecei produzindo minhas bandas, o pessoal gostou do som e logo após comecei a produzir outros artistas onde vi que existia um possível mercado que poderia me sustentar e eu continuar vivendo do que amo.

HM: Quando e como começou seu projeto? Você ja teve outros projetos (não só de música eletrônica!)?

R: Eu já tive 3 bandas, comecei com 14, 15 anos na história do rock. Já o Ruxell, comecei na brincadeira em 2011 fazendo duas mixtapes com músicas de electro house que gostava de ouvir na época, apenas pra ouvir em festa de amigos. Daí, nessa época, eu ainda tinha banda e o Ruxell não era uma prioridade minha, puro hobby, então de 2011 a 2013 depois das duas mixtapes não fiz mais nada como Ruxell e foquei na minha última banda. Em 2013 a banda acabou e consequentemente, como vinha escutando muita música eletrônica desde 2011, arrisquei fazer um primeiro EP meu pra ver como iria fluir. Misturei electro house e moombahton achando que ia ser a maior doideira da vida e que ninguém iria gostar e foi justamente ao contrário, o feedback foi ótimo e tive a oportunidade de tocar em uma primeira festa de música eletrônica. Pude perceber que estava fazendo uma das coisas que mais amo, que é tocar ao vivo e mostrar as minhas músicas na pista. Daí em diante eu percebi que realmente encontrei o meu verdadeiro caminho e sou muito feliz por estar vivendo do que amo fazer.

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HM: Quais são suas maiores influências?

R: Skrillex, Major Lazer, Flume, Tycho & Bob Marley.

HM: Que colaborações você mais gostou de produzir?

R: O Faraó Tá de R1 com MC Bin Laden & Marginal Men, Strngr Thngs com Iccarus, Pensamento Positivo com Atman, Time Machine com Nick Sharen e Push It Up com Enderhax.

HM: Você já teve supports internacionais?

R: Sim! Skrillex, Diplo, The Chainsmokers, Madeon, Porter Robinson entre muitos outros que respeito demais.

HM: Quais seus últimos lançamentos? Tem algum “na cartola” que gostaria de anunciar com exclusividade pra gente?

R: Meus últimos lançamentos foram Push It Up com Enderhax e Are You Ready com a cantora jamaicana Kim Wierdo. Dia 24/01 vem mais uma nova com o produtor americano Dirt Monkey e em 2017 to preparando um material autoral de favela bass / future funk muito verdadeiro e espero que a galera curta tanto quanto eu.

 

HM: Quais os planos futuros para o projeto “RUXELL”?

R: Esse ano vem alguns EP’s, muitos clipes (inclusive um pro verão) e adianto que vou explorar novas sonoridades & colaborações. Vem muita coisa boa pela frente, mal posso esperar pra soltar tudo :)

HM: Que dica (ou conselho) você daria para quem quer se iniciar no mundo profissional da música eletrônica (como DJ e/ou produtor)?

R: A primeira dica é, comece tocando o que ama e o que mais sintoniza com a sua energia. Logo após faça uma análise de mercado e veja se o som que ama se encontra em algum nicho de mercado. Se não se encontrar, tente se abrir a novas possibilidades sem perder a sua essência. Uma grande vantagem pra vencer no mundo da música é ter a mente aberta pra tudo. Além disso tudo, estude sempre e tenha muito respeito a todos que foram/são responsáveis pela cena de música eletrônica no Brasil.

HM: Future Funk / Future Baile / Favela Bass – são os termos que nomeiam um de seus álbuns do Soundcloud. Como surgiram não só esses nomes, mas a cena que os envolve?

R: O termo surgiu quando o gênero começou a ser conhecido graças à festa Wobble. Começaram a aparecer muitas festas querendo ter esse tipo de som tocando em seus line ups e, sendo assim surgiram mais produtores também. Pra ser sincero, o pessoal chamava de Favela Trap. Eu acho que meu som tem muito disso mas em 2015 fiz um EP que fosse um pouco além disso misturando outros estilos além do Trap, então criei o termo Future Funk pra ser uma representação um pouco mais ampla do que é o meu som. Gosto de trazer a raiz do funk em todos os BPM’S, por isso resolvi criar esse termo. A real é que esses três nomes são a mesma coisa, mas cada um chama como prefere. Como é um mercado que é muito novo e está em crescimento a todo momento, resolvi colocar os três nomes na playlist pra criar uma identificação mais fácil pro novo público.

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HM: Quais são os estilos que influenciam a sonoridade do “Favela Bass” ou “Future Funk”, ou, como chamavam, o “Favela Trap”?

R: Os principais para essa mistura são o Funk e o Trap. Daí os produtores criam seus estilo próprio dentro disso misturando muitos derivados da Bass Music (Future Bass / Miami Bass / Dubstep / Future Beats).

HM: Quem, pra você, são os ícones/representantes dessa cena (os mais consolidados)?

R: Tropkillaz, Omulu, Marginal Men, Heavy Baile / Leo Justi & DJ Comrade.

HM: Quais DJs/produtores você considera mais promissores nessa cena?

R: DJ Thai, Iccarus, Atman, Flying Buff, Maffalda, DKVPZ, Enderhax, entre muitos outros.

HM: Como você se envolveu com esse estilo?

R: Comecei a escutar essa mistura do Trap com Funk graças a festa Wobble que foi pioneira no gênero, daí um belo dia eu escutei um funk “Na casa do seu zé” e ouvi a música soando na minha cabeça de uma forma totalmente diferente como um trap/funk e pensei “putz, isso vai dar certo, mas se eu fizer um, vou ter que fazer mais?” daí em diante acabei encontrando uma forma única de fazer essa mistura e gerar frutos lindos pra minha vida. Um fato curioso é que eu nunca fui O funkeiro sabe? Então fui um pouco contra as minhas próprias barreiras, me desafiei e acabei entendendo e gostando cada vez mais de Funk pois reconheço que é um dos estilos criados 100% no Brasil. Hoje em dia fico muito feliz de estar envolvido com essa cultura, é óbvio que existem pontos negativos e positivos porém basta saber como a gente pode aproveitar sempre o melhor lado de tudo e somar com o nosso trabalho.

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HM: Que labels/selos representam o “Favela Bass/Future Funk”?

R: Esse é um mercado que tende a crescer muito, porém acredito que o que mais possa representar atualmente é o Arrastão além de canais no YouTube como Clown Music.

HM: Quais as principais festas que mantém o “Favela Bass?Future Funk”?

R: Festa Favela Bass, Arrastão, INVDRS e Puff Puff Bass na qual sou residente.

HM: Alguma mensagem final para seus fãs?

R: Agradeço de coração a todo mundo que me acompanha e me dá suporte pra continuar vivendo do que amo, não existe conquista maior do que pessoas que acreditam em seu trabalho e te apoiam, fica aqui o meu MUITO obrigado e nunca desistam de seus sonhos, pois eles fazem a nossa vida aqui valer apena todos os dias.

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